Descrição de chapéu

Documentário corajoso de André D'Elia denuncia devastação do cerrado

Sem preocupações artísticas, 'Ser Tão Velho Cerrado' se assume como instrumento de combate

Ser Tão Velho Cerrado Old Lord Savanna Brasil, 2018, 96' André D'Elia  Preocupados com o fim do Cerrado no estado de Goiás, os moradores da Chapada dos Veadeiros buscam alternativas de desenvolvimento para sua região. A elaboração de um plano de manejo os desafia a conciliar interesses aparentemente incompatíveis, abrindo um diálogo necessário entre a comunidade científica, agricultores familiares, grandes proprietários de terra e defensores do meio ambiente.
Cena do documentário 'Ser Tão Velho Cerrado' - Divulgação
Alexandre Agabiti Fernandez

Ser Tão Velho Cerrado

  • Quando Estreia nesta quinta (9)
  • Classificação Livre
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Direção André D’Elia

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Quando a imprensa fala sobre destruição na natureza, o foco geralmente é a Amazônia. No entanto, o bioma mais devastado do Brasil é o cerrado. Este documentário do diretor e roteirista André D’Elia —afeito às causas ambientais, como demonstram os longas “A Lei da Água” (2015) e “Belo Monte - Anúncio de uma Guerra” (2012)— procura sensibilizar o grande público sobre a situação da savana brasileira, que está em avançado processo de extinção.

A primeira parte apresenta o cerrado, o bioma mais antigo do planeta, com 40 milhões de anos. Biólogos, agrônomos, moradores e ambientalistas mostram a relevância do bioma, como sua biodiversidade, feita de centenas de espécies de animais e plantas que só existem ali; seu potencial farmacológico e alimentar, muito pouco conhecido em outras regiões; sua importância para a sobrevivência dos outros biomas que o rodeiam, pois capta a água que abastece grande parte das bacias hidrográficas do país.

Em seguida, o filme aborda os problemas, provocados principalmente pelos latifúndios do agronegócio, cujo modelo de exploração se baseia na monocultura da soja e na pecuária.

Desmatamento indiscriminado, uso de pesticidas banidos no resto do mundo, extinção da fauna e da flora, contaminação dos rios, desertificação e outras mazelas são denunciados com firmeza. A narrativa se desloca para a seara da política. Latifundiários são ouvidos e seus discursos são constrangedores de tão frágeis.

O agronegócio só beneficia os grandes proprietários, não gera emprego e nem riqueza para a região, muito pelo contrário. A esse modelo o filme contrapõe a agricultura familiar, que fixa as populações no campo, produz alimentos de mais qualidade e respeita o meio ambiente.

Uma dupla de atores —Juliano Cazarré e Valéria Pontes— faz constantes intervenções com informações que ampliam a perspectiva. Seus melhores momentos são aqueles em que oferecem dados e argumentos que desautorizam as falas dos grandes proprietários e sua lógica movida apenas pelo lucro.

Essa devastação é permitida pelo novo Código Florestal, daí o empenho do filme em defender a Lei do Cerrado, embora não forneça maiores elementos sobre o andamento dessa luta.

Paralelamente, mostra as duras discussões sobre o plano de manejo da Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto, em Goiás, e a ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no mesmo estado, destacando a resistência dos ruralistas, que incendiaram cerca de um quarto da superfície da reserva em represália à ampliação.

Numa linguagem direta, sem preocupações formais ou artísticas, o filme se assume como instrumento de combate. Algumas vezes há redundâncias —como as imagens servindo meramente para ilustrar alguma fala—, um didatismo um tanto excessivo e desnecessário em certos momentos, uma incômoda fragmentação na apresentação da enorme quantidade de preciosas informações, ou a insistência em tratar a beleza da fauna e da flora como cartão-postal. Mas isso tem pouca importância diante da catástrofe que o filme revela com coragem.

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