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Livro resgata espírito desestabilizador do Teatro da Vertigem

Edição que celebra os 25 anos da companhia é lançada neste domingo (19) na sede do grupo

Livro

Teatro da Vertigem na peça "A Última Palavra É a Penúltima" Edu Marin/Divulgação

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Causou um rebuliço inesperado a estreia de "O Paraíso Perdido" dentro da igreja Santa Ifigênia, no centro paulistano. Naqueles idos de 1992, grupos religiosos protestavam contra a apresentação do espetáculo ali no templo.

Os artistas, que na peça aludiam ao Gênesis bíblico e criticavam a sociedade contemporânea, até receberam cartas, ameaças de morte. Logo o assunto tomou conta do noticiário e foi debatido nas mais distintas esferas, da filósofa Marilena Chaui ao programa de calouros de Silvio Santos.

Apesar do prosaísmo de algumas discussões, a polêmica acabou por delinear a estética do Teatro da Vertigem. A partir de então, o grupo seguiu com a criação de peças site specific, pensadas para ocupar espaços alternativos.

"Isso trouxe para a gente a percepção de quanto o teatro pode interferir na vida da cidade, como ele funciona como ágora", afirma o diretor Antonio Araújo, um dos fundadores da companhia. "Isso tira uma certa anestesia da gente."

Foi nessa ideia de desequilíbrio e instabilidade que nasceu o nome do grupo. Veio de uma passagem —"Monólogo da Vertigem"— do poema "Paraíso Perdido", de John Milton, que inspirou a primeira montagem da companhia.

Esse panorama é revisto em "Teatro da Vertigem", que o grupo acaba de lançar. Organizado pela crítica Sílvia Fernandes, o livro celebra os 25 anos da companhia e reúne textos de artistas e teóricos, imagens de arquivo e uma entrevista com integrantes do coletivo.

Está ali, por exemplo, os primórdios do Vertigem, surgido no início dos anos 1990, com seus integrantes saídos do ambiente acadêmico da USP.

Pensavam, de início, não na criação de uma companhia, mas num grupo de estudos que pesquisasse o corpo e o movimento a partir da mecânica clássica e da física de Newton e Galileu —tinham até apoio de uma física teórica.

O acaso que foi dando forma ao coletivo também guiou seu modo de produção, que os artistas denominam "dinâmicas coletivas de criação".

A ideia é que todos participem da concepção, de atores à equipe técnica. Algo que lembra os processos coletivos de produções nos anos 1960 e 1970, porém no caso do Vertigem as funções não são diluídas. Estão lá as presenças de diretor e dramaturgo, mas texto e encenação são embebidos das ideias dos demais.

"O processo todo é muito partilhado, discutido, mas a gente não tinha muita consciência disso quando começamos", diz Araújo. "Estávamos no retorno da democracia brasileira, acho que esse espírito contaminou nossa criação."

Para as peças, parte-se de oficinas e improvisos, que então delineiam as cenas. "Nós íamos colhendo a experiência de todos os atores e transformando [o texto] em depoimento pessoal", afirma o ator Matheus Nachtergaele, ex-integrante do Vertigem, que ganhou os holofotes por sua atuação em "O Livro de Jó" (1995), encenada nas salas e corredores do Hospital Umberto 1º.

"Pareceu-me muito bonito que todos nós, apesar de jovens, pudéssemos colaborar com a nossa experiência", diz o ator. "Eu me lembro de trabalhar muito junto com o Luís Alberto de Abreu e o Sérgio de Carvalho [autores de 'O Livro de Jó' e 'O Paraíso Perdido'] e conseguir concretizar meu depoimento em cena."

Também se tornou comum nos trabalhos convidar dramaturgos de fora, muitos vindos da literatura, como Fernando Bonassi, Bernardo Carvalho e Joca Reiners Terron.

"Sempre achei estranho fazer teatro com a quarta parede", comenta Bonassi, autor de "Apocalipse 1,11" (2000), espetáculo que ocupou um presídio desativado. Baseada no texto bíblico, a produção remetia à violência na sociedade brasileira à época, como o massacre do Carandiru.

"Havia um desejo de realidade, e a peça vulgarizou o texto bíblico e sacralizou a experiência do real", diz o escritor. "E escrever para aquele espaço implica escrever diferente, muda a vibração do texto."

Não que o processo colaborativo conseguisse eliminar as tensões. "Há muitos momentos de crise. São processos longos e saio dos trabalhos tão extenuado que nem quero dirigir mais", afirma Araújo.

Tanto que ele se denomina um diretor extemporâneo. Entre um trabalho e outro, por vezes, demoram cinco anos.

Um deles quase causou a cisão do grupo, há dez anos. "BR-3", encenado numa embarcação no leito do rio Tietê, sofreu um revés no meio da temporada. Além das dificuldades técnicas da montagem grandiosa, o aluguel dos barcos triplicou. Logo o Vertigem se afundou em dívidas.

O que manteve o grupo? "Isso é uma pergunta que a gente faz a cada momento", reflete Araújo. "Talvez o que a gente tenha sejam apenas respostas temporárias, e naquele momento houve uma dinâmica, uma vontade de continuar."

Hoje a companhia sobrevive com um patrocínio da Petrobras, que varia segundo as produções, e não tem planos para novas montagens por aqui. Recebeu, porém, um convite para criar uma peça em Bolonha, na Itália, que deve sair no fim do próximo ano.

Araújo não gosta de definir o processo do Vertigem como um método concebido pelo grupo, mas seu trabalho marcou uma geração do teatro brasileiro, que seguiu com colaborações e um estudo de ocupação de espaços.

"O teatro que eu continuei fazendo é o teatro do Vertigem", diz Nachtergaele. "'Paraíso' já colocou no meu coração a certeza de que teatro é ritual profano. Era oração, mas sem o dogma da religião."

Teatro da Vertigem

  • Preço R$ 80 (336 págs.)
  • Autor Org.: Sílvia Fernandes
  • Editora Cobogó
  • Lançamento dom. (19), a partir das 17h, na sede do Teatro da Vertigem (r. Treze de Maio, 240)
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