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A tentação de criar super-humanos será irresistível, diz Yuval Noah Harari

Best-seller mundial, historiador israelense lança seu novo livro, '21 Lições para o Século 21'

O historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari
O historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari - Olivier Middendorp/Divulgação
Reinaldo José Lopes
São Carlos


Os problemas do século 21 são os mais globalizados da história, a começar pelo desafio das mudanças climáticas causadas pelo homem. Por isso mesmo, o maior obstáculo para enfrentá-los são as forças que levam as pessoas a pensarem de modo egoísta e tribal, como o nacionalismo e as correntes religiosas associadas a ele, disse o historiador Yuval Noah Harari em entrevista à Folha.

No dia 30/8, Harari faz o lançamento mundial de seu novo livro, "21 Lições para o Século 21", que sai no Brasil pela Companhia das Letras. Na mesma data, o audiolivro em português fica disponível na loja de obras em áudio do Google.

“Não é coincidência que o ceticismo em relação à mudança climática tende a ser coisa da direita nacionalista. Como não há resposta nacional ao problema, alguns políticos dessa linha preferem acreditar que ele não existe”, afirma ele. Para Harari, as principais barreiras a uma transformação da natureza humana por meio da biotecnologia e da inteligência artificial deixaram de ser técnicas e passaram a ser políticas e éticas – portanto, mais frágeis.

Folha – Achar que a inteligência artificial e a biotecnologia vão transformar a natureza humana em cem anos ou mesmo vários séculos não é, em parte, questão de fé? Afinal, ainda não temos a menor ideia do que a grande maioria dos nossos genes faz, e manipulá-los de forma significativa sem bagunçar totalmente a biologia humana ainda é um sonho distante.

Yuval Noah Harari – Essas coisas de fato ainda estão em sua infância, razão pela qual sou cético em relação à possibilidade de vermos mudanças substanciais na biologia humana nas próximas décadas.

Entretanto, um século é muito tempo. Pense em que ponto estávamos em 1918. Um século atrás, não estávamos familiarizados com o DNA, transplantes de órgãos pareciam ficção científica e a expectativa de vida ficava em torno dos 40 anos. Considerando os enormes avanços na medicina e na biologia desde 1918, não é exagero imaginar que, em 2118, a bioengenharia e as interfaces diretas cérebro-computador vão mudar nossos corpos e cérebros de modos profundos.

De fato, a barreira principal não é técnica. É política e ética. Hoje já estamos alterando o genoma, o corpo e o cérebro de outros animais, como camundongos. Certamente não apoio fazer experimentos com humanos de modo parecido. Mas sou cético quanto à duração das barreiras políticas e éticas que impedem isso. Elas tendem a desaparecer rápido em épocas de crise.

Se a humanidade enfrentar um colapso ecológico, uma nova guerra mundial ou apenas uma nova corrida armamentista entre os superpoderes, a tentação de tentar criar super-humanos será irresistível. E vai ser suficiente para mudar o cenário mesmo que só um país decida fazê-lo, por causa do medo de ficar para trás na competição que isso criará nos outros países. 

O sr. afirma que, de modo geral, as religiões só vão atrapalhar as tentativas de enfrentar os problemas deste século. Ao mesmo tempo, menciona de passagem como o papa Francisco tem incentivado os católicos a enfrentar o desafio da mudança climática. Outras religiões não poderiam seguir essa visão mais global?

A direção tomada pelo papa no tema das mudanças climáticas e em vários outros certamente é muito positiva. Em princípio, a religião pode nos ajudar a lidar com muitos dos desafios do século 21, porque muitas fés abraçam valores universais que transcendem os interesses egoístas de países individuais.

Infelizmente, na maior parte do mundo, a religião se tornou subserviente diante do nacionalismo e do extremismo político. Em Israel, meu país natal, o judaísmo agora é usado para justificar a ocupação da Cisjordânia e injustiças contra milhões de palestinos. Aqui e em outros lugares, os líderes religiosos basicamente dizem: “Somos o povo de Deus, então o que é bom para nós também é agradável a Deus.” 

O trabalho do sr. como historiador militar é pouco conhecido do público de seus best-sellers. De que modo seus estudos acadêmicos específicos influenciam seus livros populares?

Meus estudos sobre guerras e conflitos me tornaram muito consciente do lado sombrio da humanidade. Minha área de especialização era a história militar medieval, as Cruzadas e as conquistas europeias do começo da Idade Moderna. Muitas dessas campanhas militares foram lançadas em nome de valores e ideais maravilhosos. Mas mesmo essas ideias de amor e harmonia podem levar a crimes terríveis.

É o caso do cristianismo, que se considera a religião do amor e, de fato, trouxe muito bem para o mundo, mas também tem sido a religião menos tolerante e mais violenta de toda a história humana, nas Cruzadas ou na conquista de povos nativos fora da Europa. Portanto, toda vez que ouço as pessoas falarem de ideais elevados, tento me lembrar de como até mesmo ideais desse tipo podem ser sequestrados e distorcidos. 

Seu livro menciona diversas vezes a seriedade da crise ambiental global, mas evita dar “receitas” para mitigá-la. Por quê? 

É claro que existem muitas abordagens específicas para enfrentar o problema, desde impostos sob emissão de carbono até investir em tecnologias revolucionárias amigáveis ao ambiente, como produzir carne a partir de células, em vez de obtê-la de animais vivos. Acabei não entrando em detalhes porque não é o campo no qual sou especialista.

Como historiador, a principal contribuição que posso fazer a esse debate é ressaltar a importância da cooperação global, e a dificuldade de conseguir esse tipo de cooperação. Deveria ser óbvio que, no que diz respeito ao clima, nenhuma nação é realmente independente.  

Infelizmente, toda vez que considerações ambientais exigem sacrifícios dolorosos de curto prazo, os nacionalistas se sentem tentados a colocar seus interesses nacionais em primeiro lugar. Não é coincidência que o ceticismo em relação à mudança climática tende a ser coisa da direita nacionalista. Como não há resposta nacional ao problema, alguns políticos dessa linha preferem acreditar que ele não existe. 

Em sua lista de valores centrais das sociedades seculares que deveriam ser seguidos pelo mundo todo está a compaixão. Não é um pouco arbitrário? Sociedades seculares costumam se caracterizar pela tolerância, mas não exatamente por um apelo à compaixão.

Essa é a leitura que faço, como historiador, das tradições do humanismo e do secularismo, desde a Renascença até o Iluminismo e as democracias liberais das últimas décadas.

Uma das marcas registradas das sociedades seculares modernas é que elas vão muito além da mera tolerância. Esse tipo de sociedade se caracteriza por ser a mais pacífica e compassiva de todos os tempos. As taxas de assassinato e estupro de sociedades seculares como a França e o Canadá são muito mais baixas do que as de sociedades religiosas como o Iraque e o Paquistão, e o investimento em educação, saúde e seguridade social é muito mais alto.  

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