Descrição de chapéu Crítica

Exageros à parte, Bienal tem pesquisas artísticas consistentes

Visita ao pavilhão do Ibirapuera demanda uma fruição atenta e, ao mesmo tempo, relaxada

Daniel Rangel

33ª Bienal de São Paulo

  • Quando Ter. a dom. e feriados: 9h às 19h. Qui. e sáb.: até às 22h. Até 9/12
  • Onde Pavilhão da Bienal, av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, parque Ibirapuera, portão 3
  • Preço Grátis

A 33ª Bienal de São Paulo, “Afinidades Afetivas”, merece ser percorrida com atenção e, de preferência, sem pressa. Não existem obras espetaculares, de grande impacto visual ou que demandem a participação do público —tampouco projetos cujas abordagens estejam atreladas às emergentes temáticas político-sociais brasileiras da atualidade. 

Uma opção do curador convidado, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro. Ele preferiu não estabelecer um tema específico e, de certa forma, atuou mais como um condutor dos rumos da presente edição.

O conceito central da proposta dele foi justamente descentralizar o controle da curadoria e compartilhar a concepção da Bienal com artistas, que foram convidados como “artistas-curadores”.

Segundo Pérez-Barreiro, trata-se de uma “curadoria híbrida”, na qual selecionou “12 artistas para apresentarem exposições individuais ao lado de sete exposições coletivas idealizadas por artistas de diferentes países e trajetórias distintas”.

O termo “híbrido”, que, em linhas gerais, significa a junção de elementos díspares, é bastante adequado para definir os conteúdos expostos no pavilhão do Ibirapuera.

Composta por 19 exposições bem distintas, que por sua vez possuem camadas específicas, a 33ª Bienal demanda uma fruição atenta e, ao mesmo tempo, relaxada.

Existe uma generosidade no gesto do curador, que é refletido na espacialização e montagem das obras, o que torna a arquitetura um dos destaques. Os trabalhos respiram e o visitante pode caminhar fluidamente entre as diferentes exposições —e ainda existem áreas destinadas ao descanso e à reflexão, totalmente alinhadas ao conteúdo exposto.

A mostra se configura por meio de diferentes ilhas com obras de artistas, em sua maioria desconhecidos do público local, com abordagens específicas e que possibilitam distintas possibilidades de leitura para o visitante. 

Evidentemente, nem tudo o que está exposto agrada, pois é fato que existem alguns exageros desnecessários e inconsistências que poderiam ser evitadas. Contudo, a partir do momento em que nos permitimos adentrar as propostas, nos deparamos com pesquisas artísticas consistentes e de grande rigor formal.

Dentre as coletivas concebidas pelos “artistas-curadores”, destaco as de Alejandro Cesarco, Mamma Andersson e Waltercio Caldas

O trio, de maneira bem distinta, consegue reunir excelentes obras e provocar um diálogo instigante entre o trabalho deles e de outros artistas. Dentre as individuais selecionadas por Pérez-Barreiro, o ponto alto são as três montagens póstumas de Aníbal López, Feliciano Centurión e da brasileira Lucia Nogueira, todos ainda pouco conhecidos e subvalorizados pelo sistema de arte.

Os outros recortes dos “artistas-curadores” possuem igualmente boas obras, contudo são coletivas irregulares — seja pela inclusão de alguns trabalhos que estão aquém do todo, seja por inocentes relações estabelecidas entre as obras. No entanto, dentre as individuais dos artistas em atividade, das quais tiveram igual liberdade de concepção, a irregularidade é bem maior.

Os conjuntos apresentados se restringem a poucos trabalhos ou até mesmo a uma única obra ou instalação. Ainda assim, destacam-se as propostas de Nelson Felix, que dialoga diretamente com o espaço, e os audiovisuais de Tamar Guimarães e Maria Laet. 

Vale ainda observar as experiências que espreitam a tecnologia: o website de Bruno Moreschi e o espaço futurista de Luiza Crosman.

De fato, o conjunto apresentado na 33ª Bienal é híbrido e possui distintas abordagens e possibilidades de acesso. Pode-se explorar a fauna e a flora do parque Ibirapuera por meio dos desenhos de Mark Dion, conhecer as criativas propostas educativas de Friedrich Frobel ou se emocionar com as herméticas instalações de Tunga, as abstratas gravuras de Victor Hugo de 1840 e as potentes pinturas reunidas por Mamma Andersson. 

Existem ainda bons vídeos, como o de Roderick Hietbrink e o da dupla John Miller e Richard Hoeck, ambos recheados de humor e crítica. 

Acredito, inclusive, que um dos principias destaques da Bienal seja a vídeo-animação de 1912 do russo Ladislas Starewitch, além da sútil composição gambiárrica da venezuelana Gego.

A 33ª Bienal de São Paulo, assim como as anteriores, não contentará a todos. Poderia ter um outro enfoque, talvez mais político e próximo da nossa realidade, ou não, pois cada edição de Bienal contribui, de forma diferente, para ampliar o acesso e a difusão da arte produzida em seu tempo.

Desejo ir algumas vezes ao pavilhão da Bienal durante os próximos meses, aproveitar o que está exposto e observar uma possível evolução da mostra, ampliada por meio de ativações, conversas e presença do público.

Espero que façam o mesmo e que venham as próximas Bienais, pois como agente cultural e cidadão, em um momento de tantas perdas para a nossa cultura, que colocam em risco nossa memória e ameaçam a democracia estabelecida, desejo vida longa à Bienal de São Paulo, principal acontecimento artístico do nosso país, tão carente de afeto e afinidades.

Daniel Rangel é curador e mestrando em poética visuais pela ECA-USP

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