Descrição de chapéu

HQ 'O Outro Lado da Bola' serve de presságio para debate no futebol

Obra imagina o que aconteceria se o camisa 10 de um grande time admitisse abertamente ser gay

ÉRICO ASSIS

O Outro Lado da Bola

  • Preço R$ 54,90 (216 págs.)
  • Editora Record
  • Autores Alê Braga, Alvaro Campos e Jean Diaz

Dos 736 jogadores que participaram da Copa do Mundo de 2018, nenhum é homossexual assumido. No futebol europeu, contam-se nos dedos os atletas que saíram do armário —geralmente depois de encerrar a carreira em campo.

No Brasil, pequenas polêmicas com Richarlyson (Cianorte) e Emerson Sheik (Corinthians) —que se declararam heterossexuais— revelam que um jogador abertamente gay teria problemas sérios com dirigentes, colegas, torcida e metade do país.

"O Outro Lado da Bola", graphic novel do trio Alê Braga, Alvaro Campos e Jean Diaz, imagina o que aconteceria se o camisa 10 de um grande time brasileiro admitisse a homossexualidade em público.

Imagens da HQ O Outro Lado da Bola
Trecho dos quadrinhos ‘O Outro Lado da Bola’, de Alê Braga, Alvaro Campos e Jean Diaz - Divulgação

Cris, atacante de um time identificado como E. C. Alvinegro, declara-se gay após a morte de um ex-namorado, assassinado em crime homofóbico. A revelação cria o redemoinho previsível com a imprensa, torcedores, time e família do jogador —que tem casamento hétero e uma filha.

Tal como qualquer torcedor brasileiro tem opiniões sobre esquema tático e sabe mais que os técnicos, também há ideias prontas sobre as consequências de um gay no futebol. A primeira qualidade de "O Outro Lado" é jogar com o dito redemoinho previsível.

O roteiro cumpre as consequências esperadas —o preconceito dos colegas, a discussão com o presidente do time, a mídia infernizando a vida do jogador—, mas vai além.

Há abordagens interessantes e aprofundadas de coadjuvantes como a esposa-fachada e até de jornalistas que se envolvem no caso. O enredo envereda por temas como religião (e jogadores evangélicos?), polícia (e os protestos da torcida?) e relações internacionais (e quando se joga num país com leis homofóbicas?).

Até o assassino no crime que desata a trama ganha um pequeno arco. O redemoinho, enfim, é explorado a fundo.

Contudo, há também personagens caricaturais e tramas que soam como clichês, como a da filha do jogador. O maior deles, no entanto, está na arte, que tende ao burocrático.

Há deslizes como personagens muito parecidos ou, pelo contrário, que parecem mudar de rosto ou tipo físico entre os quadros, o que complica o entendimento. No geral, porém, os desenhos cumprem função como nos gibis de super-herói menos criativos.

Até que a realidade traga um exemplo, "O Outro Lado da Bola" serve de modelo ou presságio de uma pequena revolução no futebol.

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