Descrição de chapéu Crítica

Cinebiografia de Freddie Mercury, do Queen, é novela mexicana eletrizante

Problemas à parte, os 20 minutos finais do filme tornam a ida ao cinema uma experiência fantástica

Bohemian Rhapsody [Bohemian Rhapsody, Estados Unidos, 2018], de Bryan Singer (Fox). Gênero: biografia. Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton. Classificação: verifique em www.justica.gov.br/seus-direitos/classificacao

Cena de 'Bohemian Rhapsody', do diretor Bryan Singer Divulgação

Thales de Menezes
São Paulo

Quando uma sessão do filme “Bohemian Rhapsody” está quase chegando a duas horas de projeção, até fãs mais fervorosos do Queen podem estar com opiniões divididas sobre a cinebiografia do cantor Freddie Mercury, que tem acertos e erros.

A semelhança física com os personagens reais alcançada pelos atores em cena é impressionante, e alguns diálogos engraçados funcionam bem. Mas sobra dramalhão, é quase uma novela mexicana. 

E há cenas inverossímeis, como mostrar a criação de alguns clássicos da história do rock de modo simplificado, quase boboca.

Mas aí entram os 20 minutos finais do filme, e tudo se transforma numa experiência fantástica. Nunca o cinema conseguiu reproduzir com atores a performance de uma banda no palco com tanta 
fidelidade e tanta emoção.

O diretor Bryan Singer, responsável pela bem-sucedida franquia dos X-Men, acerta em cheio na proposta de causar impacto nos fãs da banda britânica.

Ele poderia apelar para os últimos momentos da vida de Mercury, morto em 24 de novembro de 1991, seis anos depois de se descobrir soropositivo. Mas o cineasta descarta o baixo astral para fazer do filme celebração entusiasmada de um dos maiores grupos da história do rock.

Não é fácil sintetizar em um longa as duas décadas de estrelato do Queen. Mais difícil ainda porque o filme precisa dar espaço para os muitos hits do grupo. Assim, o período inicial dessa jornada é contado em muitas cenas curtas.

Em poucos minutos, o espectador vê como um Freddie Mercury cheio de confiança se oferece para a vaga de vocalista na Smile, banda então pouco conhecida do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor.

Ao mesmo tempo, ele conhece Mary Austin e se envolve com essa jovem tiete que trabalha como vendedora numa loja de roupas.

As derrapadas da cinebiografia começam aí. Como tem muita coisa para contar, o roteiro resume demais passagens interessantes na trajetória da banda. É verdade que a ascensão do Queen na primeira metade da década de 1970 foi rápida, mas a edição faz parecer que a transição dos shows no auditório da universidade para uma turnê no Japão foi uma moleza.

O relacionamento de Mercury com Mary Austin, intenso na vida real, é açucarado em demasia na tela. O papel dela junto ao cantor foi mudando com o decorrer do tempo. De amiga, passou a namorada. Depois eles se firmaram como um casal e, quando Mercury se sentiu à vontade para experiências homossexuais, ela rompeu o casamento, mas permaneceu a seu lado como confidente e melhor amiga. Ela herdou, ainda, a maior parte da fortuna do cantor.

No filme, o destaque é grande para o casal. E o personagem demora muito a iniciar suas relações com homens. Biografias confiáveis de Mercury dão conta que ele seguiu seus desejos bem mais cedo.

No período que pode ser chamado de “anos selvagens” do cantor, com orgias estimuladas por substâncias químicas variadas, o foco do filme é errático, sem aprofundamento. Nada é explícito, e o que é insinuado parece rasteiro, esquálido. Um roteiro um tanto envergonhado.

Mas dois quesitos transformam “Bohemian Rhapsody” em programa obrigatório —elenco e música.
Americano de família egípcia, o ator Rami Malek  ganhou destaque como protagonista da série televisiva “Mr. Robot: Sociedade Hacker”. Para interpretar Mercury, recorre a uma prótese para exibir os dentes salientes, marca visual do cantor. Mas os olhos um tanto esbugalhados do ator deixam o resultado meio estranho.

Os três colegas de banda de Mercury aparecem em caracterizações minuciosas. O americano Joseph Mazzello interpreta o baixista John Deacon, e o papel do baterista Roger Taylor fica com o britânico Ben Hardy. Mas é o também britânico Gwilym Lee que deixa fãs boquiabertos. Ele tem uma semelhança assustadora com o guitarrista Brian May.

Vale assinalar que nem tudo no filme apresenta essa obstinação pela reprodução fidelíssima da história real. Episódios ganham elementos ficcionais em nome da carga dramática, como a briga da banda com o diretor de gravadora que rejeita a longa canção “Bohemian Rhapsody” como um single.

Essa questão realmente foi debatida, mas em inúmeras reuniões chatas, e não na teatral discussão do filme, que termina com Mercury quebrando a janela do escritório do produtor com uma pedra.
Além dos exageros, há imprecisões de datas, uma delas relacionada com o Brasil.

O filme acerta ao mostrar que foi o público brasileiro que criou a prática de cantar em uníssono a canção “Love of My Life”, algo depois imitado por plateias do Queen em outros países.

No entanto, isso aconteceu em 1981, no estádio do Morumbi, em São Paulo, quando Mercury já havia adotado o bigode. No filme, tudo errado —usam imagens da plateia do Rock in Rio de 1985, mas reproduzem o episódio como sendo em um show no Rio de Janeiro antes de 1980, com o ator fazendo Mercury ainda sem o icônico bigode.

Há uma confusão na ordem de lançamentos de algumas músicas. “We Will Rock You”, original de 1977, aparece sendo criada em estúdio já na década de 1980.

Se detalhes como esses podem provocar a ira dos fãs mais fervorosos, todos os erros ficam perdoados depois da apoteose na parte final. O diretor foi muito ousado ao reconstituir um show do Queen que está fartamente documentado, disponível no YouTube.

Sua recriação é tão caprichada que, em enquadramentos distantes do palco, são as imagens reais do Queen que aparecem, em sintonia impecável com tomadas mais próximas, com os atores.
O público vai deixar o cinema em êxtase. “Bohemian Rhapsody”, apesar dos defeitos, emociona demais.

Bohemian Rhapsody

  • Quando Estreia na quinta (1º)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello
  • Produção Estados Unidos, 2018
  • Direção Bryan Singer

As músicas tocadas no filme

1. "Somebody to Love"

2. "Doing All Right"

(do Smile, grupo criado por Brian May e Roger Taylor antes do Queen)

3. "Keep Yourself Alive" (ao vivo)

4. "Killer Queen"

5. "Fat Bottomed Girls" (ao vivo)

6. "Bohemian Rhapsody"

7. "Now I’m Here" (ao vivo)

8. "Crazy Little Thing Called Love"

9. "Love of My Life" (ao vivo)

10. "We Will Rock You"

11. "Another One Bites the Dust"

12. "I Want to Break Free"

13. "Under Pressure" (com David Bowie)

14. "Who Wants to Live Forever"

15. "Bohemian Rhapsody" 
(ao vivo no Live Aid, 1985)

16. "Radio Ga Ga" (Live Aid)

17. "Hammer to Fall" (Live Aid)

18. "We Are the Champions" (Live Aid)

19. "Don’t Stop Me Now"

20. "The Show Must Go On"

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