Descrição de chapéu Crítica Artes Cênicas

Encenação de 'A Mentira', de Nelson Rodrigues, revela atualidade da obra

Romance publicado em 1953 aborda temas como adultério, incesto e gravidez na adolescência

A Mentira

  • Quando Sex. e sáb., às 21h, dom., às 18h. Em cartaz até 2/12
  • Onde Sesc Ipiranga, r. Bom Pastor, 822
  • Preço R$ 9 a R$ 30
  • Classificação 14 anos
  • Direção Inez Viana

Se escrito para o teatro, “A Mentira” poderia perfeitamente figurar entre as chamadas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues. O romance, publicado em capítulos num semanário em 1953, aborda temas desconfortáveis como adultério, incesto e gravidez na adolescência.

Quando a caçula Lúcia, de 14 anos, a preferida do patriarca Maciel, surge grávida, o cotidiano de uma aparentemente imaculada família carioca é sacudido. Em efeito cascata, descortinam-se segredos e mentiras e, bem ao gosto trágico, o núcleo familiar esfacela-se sob enganos e mal-entendidos.

Assinada por Inez Viana, a versão para o palco opta por audacioso tratamento, que oscila do distante ao satírico. São pelo menos dois os efeitos obtidos: evidencia a atualidade da obra e sobrepõe os discursos, tanto do original quanto da adaptação, aos timbres melodramáticos da narrativa.

A encenação da Cia. OmondÉ, também sob direção de Viana, se afasta do realismo típico das montagens do dramaturgo carioca que, não raro, acaba por desbotar sua atualidade. Num esforço não de atualizar a obra, mas de evidenciar sua perturbadora contemporaneidade, a adaptação lança um olhar crítico ao original e cria imagens, ora literais, ora abstratas, a partir de elementos emprestados da dança e da performance.

Entre outros dispositivos, destaca-se o revezamento de papeis entre os atores —todo o elenco se desdobra nos numerosos personagens do drama. Além de conferir dinamismo ao espetáculo e valorizar cada intérprete individualmente, o jogo cênico que se estabelece tem o efeito de esgarçar e expor uma complexa teia de relações de poder sustentadas pelo abuso.

Ancoradas na mentira e no silêncio, as relações familiares levadas à cena encontram-se desarticuladas, o que se traduz em atores e personagens embaralhados e em papéis dramáticos convencionais postos em xeque. Assim, a direção parece sugerir a arbitrariedade dos arranjos sociais e familiares e afirmar ser uma ilusão o ideal de família.

Outro expediente, a revelação à plateia de todos os recursos técnicos empregados na montagem, por sua vez, parece afirmar que o próprio teatro é o exercício da mentira.

Contudo, o gesto implica, necessariamente, na apresentação da verdade, aqui entendida não somente como a própria linguagem da encenação, mas também como denúncia de mazelas como abuso sexual e violência doméstica que, embora narradas há mais de meio século, ainda persistem na sociedade brasileira.

Ao questionar os já borrados limites entre verdade e seu oposto, o espetáculo inevitavelmente ecoa o contexto político brasileiro atual. Ferramenta de abuso sistemático, a mentira ultrapassa o âmbito doméstico —sob a forma de fake news, coopta a opinião pública e adquire feições de projeto de poder.

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