Obra de Lina Bo Bardi inspira método de grupo britânico premiado

Assemble venceu o Turner, o principal reconhecimento artístico do Reino Unido, em 2016

Francesco Perrotta-Bosch
São Paulo

Não é um problema novo. Ainda em 1958, Lina Bo Bardi constatara "a cisão entre técnico e operário executor; o arquiteto que projeta um edifício não convive com o pedreiro, o carpinteiro ou o ferreiro". Quem se interessou por esse raciocínio foi a arquiteta britânica Jane Hall.

Ela concluiu há pouco uma tese de doutorado dedicada, em grande parte, à prática de Lina. Essa aproximação começou quando recebeu do British Council uma bolsa para estudos acerca da arquiteta ítalo-brasileira há cinco anos.

Neste ano, Jane Hall esteve no Brasil tanto para elaborar novos artigos sobre Lina, quanto para a fundamentação do "modus operandi" do coletivo que participa: o Assemble.

Ao explicar o modo de trabalho do grupo de 17 arquitetos com cerca de 30 anos, Hall destaca "a conversa direta com todos os envolvidos e o fazer fisicamente as coisas", além do "aspecto tátil fundamental".

Essa turma atraiu os holofotes da crítica de arte e arquitetura mundial quando venceu o prêmio Turner, o principal reconhecimento artístico do Reino Unido, em 2016. Qual obra de arte fizeram? A requalificação de um bairro degradado na cidade de Liverpool.

O coletivo reformou diversas casas abandonadas do chamado Granby Four Streets. Para além de residências remodeladas, uma delas se transformou numa estufa com uma frondosa árvore ao centro. Outro sobrado virou uma oficina de ladrilhos multicoloridos, que revestiram o piso do saguão do principal edifício dos Giardini da Bienal de Arquitetura de Veneza neste ano.

Para colocar isso em prática, arquitetos do Assemble permaneceram prolongadamente no bairro, estabelecendo interlocuções com moradores, identificando as expertises da mão de obra local, instruindo outros trabalhadores e, principalmente, pondo a mão na massa.

Tal lógica de agir do Assemble aflorou quando ainda eram só um grupo de amigos recém-formados da faculdade e, em 2010, fizeram o primeiro projeto —o Cineroleum, um posto de gasolina desativado em Londres que foi convertido em cinema.

O abrigo provinha da cobertura metálica que lá estava. Ao redor dos quatro pilares existentes, delimitaram o perímetro da sala de projeção com uma cortina prateada costurada à mão —ela podia ser levantada totalmente, abrindo o ambiente para a rua. A arquibancada e as cadeiras foram feitas de madeira.

Jane Hall admite que "quando as pessoas escrevem sobre o Cineroleum, elas projetam muitas intenções, uma agenda social, uma postura perante os edifícios abandonados no ambiente urbano, mas nós só queríamos mesmo saber como funciona uma furadeira".

Essa característica distingue o Assemble da lógica convencional de um escritório de arquitetura. O mais recorrente é que arquitetos intentem antever totalmente o que será executado depois —é o que se chama de projeto. A ideia de como será o edifício fica pronta antes que ele seja construído e se possa ter uma experiência nele.

O Assemble embaralha essa situação. Hall explica que seu processo é muito experimental. "Recorrentemente, nós começamos a conceber algo e nem percebemos que já estamos executando a coisa final. Não há momento claro de transição entre o projeto e a execução", diz ela. 

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