Bruno Covas demite André Sturm, secretário de Cultura, e o substitui por Alê Youssef

Prefeito de São Paulo também acomodou tucanos Carlos Bezerra e Ricardo Tripoli, que não se elegeram

São Paulo

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), demitiu nesta segunda (14) o secretário municipal de Cultura, André Sturm, no cargo desde 2017. Ele será substituído pelo produtor cultural Alê Youssef.

A troca faz parte de um aceno de Covas ao eleitorado progressista. Desta maneira, sai um secretário suspeito de improbidade administrativa e com relação turbulenta com movimentos culturais e entra um dos principais articuladores do Carnaval de rua paulistano, fundador do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta.

“Meu comprometimento será integral”, escreveu o novo secretário em uma rede social. Também disse que irá “abrir o diálogo, buscar inclusão e celebrar a diversidade”.

Youssef ganhou projeção ao chefiar a Coordenadoria Especial da Juventude desde sua criação, no início da gestão de Marta Suplicy (2001-2004). O gabinete organizou eventos de rua como o Festival Agosto Negro de Hip Hop e o Lov.e por São Paulo.

Com a saída de Marta, Youssef se tornou chefe de gabinete de Soninha (então no PT, atualmente no PPS) na Câmara dos Vereadores de São Paulo, entre 2005 e 2006. 

Fracassou ao tentar se eleger deputado federal pelo PV em 2010, época em que era sócio do Studio  SP,  casa de shows que funcionou de 2005 a 2007 na Vila Madalena e de 2008 a 2013 na rua Augusta. Ali, despontaram carreiras de artistas como Mallu Magalhães e Tulipa Ruiz.


 

O novo secretário Alê Youssef na festa de um ano da Casa do Baixo Augusta - Marcus Leoni/Folhapress

Após a demissão,  Sturm disse à Folha que já havia feito o pedido de sua exoneração antes das eleições de 2018, mas permaneceu na cadeira a pedido de Bruno Covas, até ser comunicado da demissão nesta segunda. "Trabalhar com governo é algo muito desgastante, há muita burocracia", diz. 

A troca promovida pelo prefeito é acompanhada também da entrada do deputado estadual Carlos Bezerra (PSDB) na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer. Ligado aos direitos humanos e da ala mais à esquerda do tucanato, ele não conseguiu se eleger para a Câmara dos Deputados. 

Já Ricardo Tripoli (PSDB), deputado federal que tentou sem sucesso uma vaga no Senado, ocupará o recém-criado posto de secretário-executivo voltado ao relacionamento com o governo federal. 

André Sturm é alvo de uma investigação do Ministério Público do Estado de São Paulo, que abriu inquérito para apurar se houve improbidade administrativa do secretário no rompimento do contrato entre a prefeitura e o Instituto Odeon, organização que administrava o Theatro Municipal paulistano.

Sturm assumiu a pasta vindo da direção do Museu da Imagem e do Som, cujo público havia ampliado de 40 mil (em 2009) para 446 mil (2016), com populares mostras interativas. Também ficou marcado por seu trabalho à frente do Cine Belas Artes.

Mas sua gestão foi marcada por uma série de desgastes. Logo que assumiu, há dois anos, viu um contingenciamento de 43,5% no orçamento da pasta. E seguiram-se protestos da classe artística.

No Carnaval daquele ano, houve uma marcha contra a organização da festa, a cargo da Secretaria Municipal de Cultura, e a dispersão pela PM com bombas de efeito moral na praça Roosevelt.

Quatro meses depois, divulgou-se áudio em que Sturm ameaçava "quebrar a cara" de um gestor cultural durante reunião na zona leste. Logo na semana seguinte, um grupo de 70 manifestantes invadiu o 11º andar do edifício onde funciona a secretaria, um ato em que se pedia a saída de Sturm da pasta.

As relações do ex-secretário se estremeceram depois de ter vazado, em janeiro passado, uma gravação na qual ele troca ofensas com uma funcionária da secretaria e diz que ela será exonerada. Ela pergunta se será demitida porque "não quis dar" para ele, durante uma viagem ao Canadá, que Sturm depois afirmou ter ocorrido a trabalho. No áudio, ele responde "se eu quisesse te comer, eu teria tomado iniciativas anteriores, não teria te levado ao Canadá".

Outro embate de Sturm veio em meados do ano passado, depois de a gestão modificar a Lei de Fomento ao Teatro, destinada a programas de pesquisa contínua e de produção teatral. Em agosto passado, a prefeitura emitiu um parecer que alterava os votos para formar a comissão julgadora do edital. A mudança, segundo artistas, aparelharia o processo de escolha de projetos e descaracterizaria lei.

Já no fim do ano passado, o ex-secretário se envolveu em outro desgaste, que o levou a ser investigado pelo Ministério Público —para apurar se houve improbidade administrativa por parte de Sturm. Em novembro, a prefeitura pediu a rescisão do contrato com o Instituto Odeon, que administrava o Theatro Municipal desde setembro de 2017. A associação e a secretaria trocaram insultos, mas as tensões se intensificaram depois de outro áudio, desta vez gravado por um funcionário da Odeon.

Nele, Sturm diz: “É evidente que não vou dar quitação antes de vocês assinarem que querem sair. Bem, se eu dou a quitação para vocês e o presidente do conselho diz que pensou melhor e não quer sair? Como eu vou notificar vocês depois se dou quitação para vocês? Agora, é evidente a disposição para um entendimento amigável. Se eu não quisesse amigável, já teria feito litigioso”. 

 

Artur Rodrigues, Gustavo Fioratti e Maria Luísa Barsanelli

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