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Usuário, autor costura histórias sobre o fracasso da guerra às drogas

'Na Fissura' mostra pano de fundo sinistro e incoerente para as vidas de quem se envolveu no conflito

O jornalista britânico Johann Hari, autor de 'Na Fissura: Uma História do Fracasso no Combate às Drogas' - Simon Plestenjak/UOL
Fernanda Mena

Na fissura – Uma história do fracasso no combate às drogas

  • Preço R$ 89,90 (528 págs.)
  • Autor Johann Hari
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Hermano Freitas

Demorou anos para Johann Hari entender uma de suas primeiras memórias, na qual tenta, sem sucesso, reanimar uma parente desacordada. Ela não estava dormindo ou doente, como ele então imaginou. Ela estava dopada.

Desde essa lembrança, drogas sempre fizeram parte da vida do jornalista britânico. Em sua primeira coluna no semanário New Statesman, em 2001, Hari relatou a celebração de sua formatura na Universidade de Cambridge com “algumas pastilhas de ecstasy e linhas de cocaína”.

Essas substâncias estavam na rotina de seus familiares chapados e de seus amigos. E também no hábito do jornalista de tomar remédios para narcolepsia mesmo sem sofrer da doença, mas para acelerar suas maratonas de trabalho —ao final das quais caía tão apagado quanto a parente que tentava acordar naquela memória de criança.

Essa intimidade com o tema foi o pontapé para a ampla investigação apresentada em “Na Fissura: Uma História do Fracasso no Combate às Drogas” (Companhia das Letras). 

No livro, Hari extrapola a posição de usuário para se aprofundar na história da guerra às drogas e em suas improváveis motivações —econômicas e xenófobas mais do que relacionadas às questões de saúde envolvidas neste consumo.

Na primeira parte de “Na Fissura”, o jornalista conta a história de três personagens, tratadas como arquétipos.

A primeira é o czar antidrogas pioneiro dos EUA, que elevou o tom contra as drogas, criando uma máquina de combate de viés racista que angariou amplos fundos para a agência sobre seu comando, o Federal Bureau of Narcotics (FBN), Harry J. Anslinger.

Segunda é a usuária de heroína conhecida como uma das maiores vozes da história do jazz, que seria perseguida por Anslinger como caso exemplar até morrer na cama de um hospital isolada por agentes do FBN, Billie Holiday.

A terceira é o mais temido gângster de Nova York, que embarcou no tráfico de drogas com a proibição, espalhando o terror como estratégia de mercado e corrompendo forças do Estado até construir um império e então morrer metralhado, Arnold Rothstein.

Na segunda e terceira partes do livro, o autor explora personagens implicados direta e indiretamente nas múltiplas externalidades do combate aos psicotrópicos. Retrata policiais para os quais essa batalha se mostrou sem sentido, jovens sem perspectiva para os quais o violento mercado ilegal foi alternativa de vida, presos torturados e mortos pelo Estado, vítimas das atrocidades dos cartéis que não encontraram reparação em sistemas de Justiça corrompidos.

Seus relatos dão corpo, tempo e espaço para a abstração dos dados que em geral dominam este debate. Hari é muito feliz nas escolhas dos personagens perfilados e das situações extremas que retrata. Ainda assim, casos emblemáticos, como o da Colômbia, ficam de fora.

Hari então entra nos capítulos mais burocráticos e potencialmente ingênuos do livro, nos quais apresenta, com declarado entusiasmo, o trabalho de cientistas que apresentam hipóteses alternativas para explicar as causas da dependência química. Em seguida, explora as recentes inovações no campo das políticas de drogas. Interessantes e informativas, essas duas partes do livro se ressentem de não terem recebido do autor a mesma carga de questionamentos que impõe ao restante de sua investigação.

O jornalista descreve as fortes correlações encontradas por pesquisadores entre traumas de infância e dependência química. E remonta o estudo em que, ao contrário do resultado tradicional dos experimentos do tipo, cobaias dispostas em jaulas com oferta ilimitada de drogas, mas também com companheiros, entretenimento e comida não se intoxicavam até a morte. A tese é que, se estivesse numa jaula vazia, teriam abusado da substância até uma overdose.

Em seguida, Hari aborda a surpreendente história do movimento de usuários de heroína que obteve uma sala de uso seguro em Vancouver, no Canadá, a política de descriminalização do uso de drogas em Portugal e a legalização da maconha no Uruguai e nos dois primeiros territórios a fazê-lo nos EUA, Washington e Colorado.

Ao final, um capítulo sobre o Rio de Janeiro no qual o jornalista admite ter presenciado ali, em plena Cidade Maravilhosa, a face mais perversa da guerra às drogas, com mortes assombrosas em comunidades pobres que não causam espantam no resto da cidade nem do país.

Com isso, “Na Fissura” costura um pano de fundo sinistro e incoerente para o desenrolar das vidas de quem, por escolha ou por acaso, se viu envolvido nas engrenagens da guerra às drogas. Nunca se sabe quem será o próximo.

Mais do que isso, o livro joga luz numa pergunta nos dias de hoje: vale a pena matar e morrer para impedir, sem sucesso, a parente de Hari de ficar dopada? O retrato construído pelo autor aponta apenas uma resposta: Não.

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