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Carnaval de rua do Rio foi recriado por militantes do partidão e da luta armada

Livro mostra que blocos renasceram nos anos 1980, com ativistas das Diretas e do movimento estudantil

Foto sem data de desfile do Cordão da Bola Preta, com carro puxado por burros
Foto sem data de desfile do Cordão da Bola Preta, com carro puxado por burros - Acervo Pessoal/Divulgação
Maurício Meireles
São Paulo

Chegou a turma do funil. Cheia de reis, piratas e jardineiras, entortando a língua e os passos pelo asfalto, ela ficou um tempo sumida --mas depois voltou ruidosa como antes, com seus tambores, agogôs e reco-recos.

Há quem fale que os blocos de Carnaval do Rio de Janeiro tiveram uma retomada nos anos 2000, depois de décadas em que as ruas não viam um mísero pierrô chorar porque sua colombina foi embora com o arlequim.

É fato que, nesse período, a festa do Rei Momo chegou a números superlativos --neste ano, serão 473 blocos e 509 desfiles, e o Bola Preta, o centenário bloco da cidade, outra vez deve ultrapassar os mais de 2 milhões de foliões. Mas vale lembrar que essa história não começou ontem.

O objetivo de "Meu Bloco na Rua", de Rita Fernandes, que chega agora às livrarias, é justamente contestar a ideia de que tal retomada aconteceu apenas nos últimos 20 anos. 

Fruto de uma pesquisa de mestrado na na FGV-Rio, a obra associa o ressurgimento do Carnaval de rua à abertura política, a partir de 1985, e a membros da militância de esquerda --egressa do partidão, da luta armada, do movimento estudantil e da campanha pelas eleições diretas.

Antes que os teóricos do marxismo cultural ergam as sobrancelhas ressabiados, a autora faz um alerta.

"Não estou dizendo que os blocos faziam parte da política partidária. Os fundadores eram pessoas que estavam na militância de esquerda em paralelo", diz ela, que é presidente da Sebastiana, uma das principais associações de blocos da cidade.

Depois de traçar um panorama histórico do Carnaval da capital, Fernandes atribui a retomada a um grupo de agremiações surgidas na segunda metade dos anos 1980 --o Simpatia É Quase Amor, o Barbas e o Suvaco do Cristo. Não incluiu o Bloco de Segunda, que também vê como responsável, porque precisou fazer um recorte.

O Simpatia, por exemplo, que desfilou pela primeira vez em 1985, juntava membros do partidão e criadores da Fladiretas --torcida organizada do Flamengo que defendia as eleições diretas à época. 

Muitos eram filhos de fundadores da Banda de Ipanema, um dos poucos a surgirem nos anos 1960 e também ligados à esquerda --tanto que alguns membros do PCB chegaram a desconfiar que o Simpatia fosse não só uma dissidência das tradições familiares, mas também da política.

Já o Barbas, que nasceu em Botafogo, tem entre seus fundadores Nelsinho Rodrigues --o filho de Nelson Rodrigues e ex-presidente do bloco, que deixou o cargo após um AVC em 2015, foi do MR-8 e passou nove anos preso. A turma do Bloco de Segunda tinha sido do mesmo movimento.

O Suvaco do Cristo não tinha militantes ligados a movimentos do tipo, segundo a autora, mas seu segundo desfile já arrumou uma encrenca com a Igreja --o bloco foi proibido de usar o próprio nome, acusado de ridicularizar um símbolo religioso.

Tudo bem, a agremiação tentou usar o nome Bloco do Suvaco, mas todos passaram a se referir a ele como "ex-Suvaco do Cristo". No fim, o nome original acabou se impondo, como prova de que a festa se decide mais nas ruas do que nos gabinetes.

Além dos botequins e da política, outro elo entre os blocos da retomada é uma faixa de areia de 200 metros na praia de Ipanema, o Posto Nove. Foi ali que, após a volta do exílio, Fernando Gabeira desfilou com sua proverbial e diminuta tanga de crochê, que pegara emprestada de uma prima --virou o símbolo do verão da Anistia.

Era ali que intelectuais, artistas e a juventude descolada se encontrava. E também onde circulavam os militantes de um PT fundado havia pouco.

Mas, se agora fala-se em retomada, o que aconteceu para o Carnaval dos blocos da capital carioca entre os anos 1960 e 1970?

A ditadura não é o suficiente para explicar. A cultura de rua carioca e o samba em especial já sofriam perseguição implacável desde sempre. O começo do século 20 é emblemático nesse sentido --é famoso o caso de 1908, quando o pandeiro de João da Baiana foi apreendido pela polícia.

"Não é só a ditadura, mas claro que ela é um dos fatores sérios", diz Fernandes. "Não é que ela combatesse diretamente o Carnaval, mas, como ela combatia o confronto de ideias, ele foi desaparecendo. A ditadura faz sumir os movimentos de ocupação [da rua] que são contestatórios."

A razões da crise da folia seriam a ascensão da festa oficial, representado pelas escolas de samba, ao mesmo tempo em que o samba e as músicas carnavalescas perdiam espaço para canções gringas nas gravadoras. Também entram na conta o surgimento do axé, na Bahia, e o crescimento do turismo para outros destinos.

Só é importante ressaltar que, quando se fala em retomada, o termo se refere a um Carnaval da zona sul do Rio, capitaneado pelas elites culturais que exportam modismos para fora da cidade. Nos subúrbios, ele nunca deixou de existir.

Os fantasiados marcharão pelas ruas daqui a um mês e talvez gostem de conhecer essa história. Mas, dado o calorão que se anuncia para a data, o principal ensinamento vai ser mesmo o da velha marchinha --cachaça vem do alambique, e água vem do ribeirão.

Meu Bloco na Rua - A Retomada do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro

  • Preço R$ 49,90 (223 págs.)
  • Autor Rita Fernandes
  • Editora Civilização Brasileira
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