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Marighella é mais amado e odiado hoje do que na sua época, diz biógrafo

Guerrilheiro é tema de filme sobre sua vida dirigido por Wagner Moura e exibido no Festival de Berlim

Cena do filme 'Marighella, de Wagner Moura, na programação do Festival de Berlim 2019
Cena do filme 'Marighella, de Wagner Moura, na programação do Festival de Berlim 2019 - Divulgação
Maurício Meireles
São Paulo

Carlos Marighella é mais amado e odiado hoje do que nos anos 1960, quando era considerado o inimigo número um da ditadura militar, diz o jornalista Mário Magalhães, autor da biografia que inspira o filme sobre o guerrilheiro exibido à imprensa nesta quinta (14) no Festival de Berlim.

O longa-metragem, que marca a estreia de Wagner Moura na direção, se inspira na terceira parte de “Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” (Companhia das Letras), que se passa entre os anos de 1964 e 1969, quando o revolucionário foi morto pelo regime. O prólogo também está no filme.

A obra, uma peça de jornalismo, saiu em 2012, quando o Brasil ainda não sonhava com a polarização política de agora. O filme, uma peça de ficção, chega em um momento deflagrado, diante da ascensão dos conservadores e de iniciativas de revisionismo do passado.

“O filme chega em um momento no qual o governo central foi ocupado por saudosistas do regime que matou Marighella, então é óbvio que ele vai esquentar ainda mais esse clima de discussão histórica. Mas isso nunca foi tão importante”, afirma Magalhães. “Quando o livro saiu, Marighella era um personagem do passado. Hoje, as ideias que o Marighella defendeu soam mais fortes diante do cenário nacional.”

Desde que o Seu Jorge foi anunciado no papel do guerrilheiro, o jornalista afirma que tem visto setores da direita questionarem a escolha —dizendo que Marighella, na verdade, era branco. Para Magalhães, dizer isso é o mesmo que “uma ministra de Estado recusar a teoria da evolução”.

O biógrafo esclarece que o revolucionário tinha mãe negra, descendente de escravizados, e pai italiano. Tanto que as vizinhas diziam que ela tinha “barriga suja” —porque nenhum dos filhos saiu branco como o pai. Um dos codinomes que Marighella mais usou era Preto. Em outra ocasião, se definiu como “um mulato baiano”.

“É um direito dos povos conhecer a sua história. E há um movimento em curso, no Brasil, para impedir que as pessoas formem seu próprio juízo a respeito de fatos históricos que têm base em informações comprováveis.”

Para o biógrafo, há um ramo da historiografia que tentou apagar Marighella da memória nacional, foi derrotada, e agora tenta fraudar fatos históricos “para impedir que os cidadãos formem sua própria opinião”.

Magalhães chegou a acompanhar uma das filmagens, no Rio de Janeiro, mas diz que sua participação no filme é apenas ter escrito o livro. Junto a isso, ele vê iniciativas de censura avançando no país —elas seriam patrocinadas pela Justiça e pela iniciativa privada.

“Meu maior temor é que as pessoas formem um juízo sobre o filme sem assistir. Assim como é impossível ter uma opinião sólida sobre o personagem histórico sem conhecer sua trajetória.”

O jornalista trabalha agora em dois novos livros —uma biografia de Carlos Lacerda, cujo primeiro volume sai pela Companhia das Letras ano que vem, e outro, ainda sem data ou editora, sobre o Brasil em 2018.

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