Artista cria espaço expositivo em sítio com obra que avança sobre precipício

Thiago Rocha Pitta instala obras ao ar livre em sítio em Petrópolis

Marcos Augusto Gonçalves
Petrópolis

​Da sua borda, no alto da serra, até o nível do mar, o abismo perfaz 800 metros. A visão é formidável: estamos num belvedere natural de onde se descortina a baía de Guanabara, vista do fundo em direção à barra, ladeada, à direita do observador, pelo Pão de Açúcar. 

Ali, o artista Thiago Rocha Pitta, 38, instalou uma plataforma de madeira que se projeta em direção ao vazio e ampara em sua extremidade um espelho d’água de três metros por dois e oitenta.

A superfície, por vezes ondulada pelo vento e agitada pela chuva, reflete o movimento das nuvens e as variações de luzes e cores da passagem do tempo. Projeta em declive a vastidão do céu, confunde-se com a neblina e redefine as linhas do horizonte. 

Alimentado por um pequeno duto, o espelho líquido goteja, devolvendo ao vale a água do alto, num movimento que repete o ciclo natural. É de ciclos, aliás, que tudo se trata.

 “Abismo sob Abismo” é um trabalho que remete ao início da carreira de Thiago. Sua primeira versão foi montada em 2001, num mirante, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. “Não tinha essa plataforma de madeira e o espelho não era de água, era um espelho duro, de vidro”, conta.

Naquela época, o estudante da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro “fazia uns bicos e ajudava artistas”. Foi assistente, entre outros, de Lygia Pape e Tunga, de quem se tornou amigo.

 

“Na casa do Tunga, no Rio de Janeiro, tinha uma série de esculturas embaixo de um pé de jambo. Volta e meia ele me falava que tinha essa ideia de comprar um terreno vizinho ao dele e montar um parque de esculturas. Eu achava sensacional”.

Quando Tunga morreu, em junho de 2016,  Thiago decidiu, enfim, transformar os 13 mil metros quadrados de uma antiga propriedade da família, nos arredores da cidade de Petrópolis, num espaço expositivo ao ar livre. 

Admirador da chamada “land art”, muitas de suas obras mantêm estreita relação com a natureza e os fenômenos climáticos —e só se realizam de fato fora do espaço fechado da maioria das instituições de arte.

“Essa mudança para Petrópolis foi motivada pelo fato de eu me dar conta de que boa parte do trabalho que faço, para não dizer a mais importante, não consegue ser absorvida por coleções particulares e museus, porque é uma parte mais fluida, que não se configura como objeto”, diz.

“É a parte do fogo, a parte da água, a parte da ruína. Se eu não tomasse as rédeas e criasse um ambiente para esse tipo de trabalho, eu passaria a minha existência frustrado, sem poder realizar o 
máximo da minha potência como artista".

Antes de partir para a aquisição do sítio, Thiago já havia instalado algumas obras em Petrópolis.

Desde o ano passado, quando resolveu  se mudar e passar ali parte de sua vida, ampliou consideravelmente o acervo exposto na área verde da propriedade, que ele vem livrando de plantas exógenas para manter a exuberância original da mata atlântica.

 
Num jardim próximo à casa, por exemplo, estão exemplares de uma série de esculturas feitas com pano petrificado. Com o título “O Silêncio”, duas barracas dispostas frente a frente, em seu mutismo pétreo, deixam-se tocar pela ação do clima e vão adquirindo, como diz o artista, “a pátina do tempo”.

Esse conjunto de trabalhos, que também explora formatos de velas de embarcações, foi representado com uma instalação na 30ª Bienal de São Paulo, em 2012.

Num outro canto, Thiago montou a intrigante “Juventude”, uma escultura-instalação que consiste em um barco metálico cheio de água sobre galhos de madeira de uma fogueira pronta para ser acesa.

“Juventude” se relaciona diretamente com uma outra obra, chamada “Herança” —um vídeo de um barco à deriva no mar, com duas pequenas árvores plantadas em seu interior. Comprado pelo MoMA no ano passado, o trabalho é uma adaptação de uma ideia do pai do artista (morto em 2006) que não tinha sido realizada, daí o título.

Da água para o fogo, a escultura “Cinema Fóssil”, de 2010, já exibida em São Paulo, na galeria Millan, é uma superfície espelhada de aço, em formato de tela de cinema, que reflete a imagem e irradia o calor de um braseiro disposto numa escavação em sua base.

“No cinema você usa uma câmera que captura luz e imprime essa luz numa fita. Nesse trabalho, são essas milhares de folhinhas que captam a luz do sol para fazer a fotossíntese. No futuro viram a lenha que alimenta esse cinema. A brasa é como se fosse a luz do sol, guardada ali durante dezenas ou centenas de anos, que vai sendo liberada”.

Em progresso, o lugar já recebeu visitas ilustres, entre as quais uma representante da Dia Art Foundation, organização norte-americana que mantém coleção e espaço notáveis no estado de Nova York —com obras, inclusive, de expoentes da “land art”.

Thiago está providenciando a personalidade jurídica de seu parque, que deverá, além da face artística, desenvolver projetos socioambientais. Seus planos incluem um calendário anual de visitação, em sintonia com as atividades culturais de Petrópolis e região, além de datas relacionadas a fenômenos naturais —como eclipses e mudanças de estação.

Além das esculturas, o artista tem feito aquarelas e afrescos inspirados nas variações da paisagem que se vê do alto. Seu próximo passo é montar em escala um por um o trabalho que pretende replicar na Bienal de Istambul, no segundo semestre. O plano é uma construção que espelhará no teto o céu do dia 2 de setembro do ano passado, data em que o fogo consumiu o Museu Nacional, no Rio.

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