Descrição de chapéu Livros Flip

Flip anuncia Kalaf Epalanga, músico e escritor, em sua programação

Convidado é autor de 'Também os Brancos Sabem Dançar' e é um dos membros da banda Buraka Som Sistema

Maurício Meireles
São Paulo

Jean-Claude van Damme não é nenhum pé de valsa. O ator não tem ginga. Quando se mexe, é como se tivesse os quadris presos —se "mexer" não for uma palavra generosa demais aqui.

A prova está em uma cena clássica de "Kickboxer" (1989), na qual ele tenta bailar ao som de "Feeling So Good Today", de Beau Williams. Por isso, o que aconteceu era improvável: o ator virou a musa inspiradora do kuduro —sim, o nome do ritmo e dança angolanos quer dizer isso mesmo que você entendeu.

Ao ver o filme, conta-se, o músico Tony Amado pulou para o sintetizador e criou o gênero no qual melodia e harmonia vão para o segundo plano e o ritmo sobe no palco. Na coreografia, os pioneiros foram os dançarinos Salsicha e Vaca Louca.

O músico e escritor Kalaf Epalanga, angolano radicado em Lisboa, entrelaça suas memórias à história desse gênero no livro "Também os Brancos Sabem Dançar". Nascido em Benguela, ele é um dos convidados da próxima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 10 a 14 de julho na cidade fluminense.

Epalanga sabe essa história de cátedra. Ele é um dos membros da banda Buraka Som Sistema, que surgiu em 2002, acabou em 2016 e ajudou a espalhar o kuduro pela cena internacional —com forte diálogo com outros ritmos das periferias do mundo.

Aqui no Brasil, uma versão diluída foi parar na novela "Avenida Brasil", com a famosa abertura "oi! oi! oi!". Também aqui no país, a Buraka é uma das influências mais evidentes do Baiana System, grupo liderado por Russo Passapusso.

No livro, o autor parte de um episódio real, o dia em que foi detido por estar sem passaporte, ao tentar cruzar a fronteira entre a Suécia e a Noruega. "Se a Europa me ensinou alguma coisa, foi que não existe nada mais assustador do que um africano a atravessar-lhe as fronteiras. 'Escondam o vosso dinheiro, escondam as vossas filhas, os pretos estão a invadir-nos o quintal'", escreve Epalanga.

Na primeira parte, o romance se alterna entre cenas com os policiais e as memórias do autor, que se confundem com o surgimento do kuduro. Não é à toa que o subtítulo do livro é "um romance musical".

É assim que vamos encontrar um jovem Epalanga com o primo —seu primeiro ídolo, diz— a procurar mixtapes gravadas em fitas cassete no Roque Santeiro, grande mercado em Luanda batizado com o nome da novela brasileira. "Uma cassete com a seleção certa, na nossa era, vale tanto quanto os sonetos de Shakespeare", dizia aquele primo.

A escrita, para o autor, surgiu desse contato com a música. E não só na infância. Quando tinha 17 anos, foi enviado pela mãe para estudar em Lisboa —a guerra civil em Angola chegava a sua segunda fase e o menino se aproximava da idade de servir ao Exército.

"Eu queria escrever para a música. Mas, no começo, fui recusado, acharam que o que eu fazia era meio rebuscado, cheio de advérbios, de metáforas...", conta Epalanga.

Alguns dos momentos marcantes de sua escrita estão nas descrições das noites africanas em Lisboa, onde o kuduro começou a se espalhar. Para contar a história do ritmo, ele pensou em fazer como Ruy Castro em "Chega de Saudade" —mas optou pela autoficção.

Os temas da chamada literatura pós-colonial estão presentes no romance, é claro, mas ganham uma outra roupagem. Os autores das ex-colônias portuguesas na África que chegam ao Brasil costumam ser influenciados pelo realismo mágico, pelo romance histórico e pelo ambiente rural —Epalanga, por sua vez, entrega um romance essencialmente urbano.

Em seu país, também deve ser um dos poucos autores que não tem ou teve qualquer relação com a política —caso do poeta Agostinho Neto, que chegou a ser presidente do país. "Eles fizeram merdas tremendas na política, mas são bons poetas", ri o autor.

"Tenho esse pulsar urbano, essa vontade de aproximar nossa realidade com outras [realidades] da diáspora africana. Até porque [a cidade] é um lugar onde em geral não vemos o africano circular. Ou até vemos, mas não observamos. Quero ver os homens curvados pelo peso da selva urbana", diz Epalanga.

Em uma história que apresenta um africano a cruzar fronteiras pelo mundo, a batida da música é descrita pelo autor como uma língua franca.

"Não sou versado em teoria musical, mas existe a clave africana [forma de divisão dos compassos] que une não só o Brasil, mas o Caribe todo e vai parar em África. Nós temos merengue em Angola. Os sebos de Barranquilla [na Colômbia] estão cheios de discos do Congo e de Angola", diz.

O cantor-poeta, como alguns o definem, se vê profundamente influenciado, entre outros, por cronistas brasileiros —Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Drummond. Sem falar no contato com a música e o resto da literatura brasileira (Epalanga costuma vir ao país). Só lamenta a falta de mais interesse do Brasil no intercâmbio com Angola.

"O que o Brasil nos deu e nos dá é o oxigênio puro. Falo por mim, mas conheço pessoas que adorariam retribuir. Dizer: 'Visita a casa da gente, senta aqui, deixa a gente cuidar de você por algumas horas'."

Também os Brancos Sabem Dançar

  • Preço R$ 54,90 (304 págs.)
  • Editora Todavia
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