Descrição de chapéu Artes Cênicas

Loucura e lembranças guiam peças com Pedro Paulo Rangel e Maria Padilha

Rangel relê, no palco, crônicas de António Lobo Antunes, e Padilha vive loucura de Maura Lopes Cançado

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Mergulhando em leituras das crônicas de António Lobo Antunes, o ator Pedro Paulo Rangel se fixou num traço daquela escrita. "Parece que foram escritas para serem ditas. Tudo dá margem a uma teatralidade muito grande", comenta o intérprete.

E são justamente elas, pouco mais de uma dezena, que guiam a dramaturgia de "O Ator e o Lobo", monólogo que Rangel estreia em São Paulo, celebrando 50 anos de carreira.

Foi um processo de cinco anos em que o ator e o diretor Fernando Philbert exploraram os escritos de Lobo Antunes, pesquisando cerca de 300 crônicas, segundo o intérprete. "Sobrou material para outros três espetáculos."

O ator Pedro paulo Rangel em imagens de divulgação da peça "O Ator e o Lobo", baseada em textos do escritor português António Lobo Antunes
O ator Pedro paulo Rangel, que estreia peça "O Ator e o Lobo" - Lúcio Luna/Divulgação

Eles se fixaram no tom memorialista do escritor português, que soma dados autobiográficos à sua ficção. Ali, acabaram encontrando reflexos da história de Rangel.

"Há uma série de coincidências. Ele é surdo, eu também sou. Meu avô materno era Antunes, mas eu escapei do sobrenome por uma série de coincidências erradas", diz o ator de 70 anos —seis a menos que seu colega lusitano.

Assim, a peça costura os escritos com fatos da vida do próprio ator. "A gente aproveitou essa vertente das coincidências e mescla falas dele e minhas. É um espelho, o que ele fala dele, eu falo de mim. Então a gente tenta confundir o espectador. Ou explicar."

Rangel passa por histórias como um dolorido encontro de um velho amigo no hospital, o retrato de um menino que foge de casa porque não queria comer abóbora ou a espera de um homem que aguarda pela mulher na chuva.

Para acompanhar os escritos, o cenário é composto de projeções sobre um fundo acortinado. Trazem documentos e fotografias de Rangel, mas também do escritor português e do colega José Saramago, de quem Lobo Antunes era desafeto.

"Em sua obra, Lobo Antunes não se furta desses comentários", diz Rangel. "Ele mesmo conta que o encontravam na rua e diziam: 'Você não é aquele...' E ele respondia: 'Sim, sou aquele que é melhor do que o outro'."

Hoje tido como um dos maiores autores portugueses vivos e ganhador do prêmio Camões, Lobo Antunes esteve próximo de vencer um Nobel de literatura (troféu conquistado por Saramago), mas hoje só tece críticas à honraria. Não à toa, seu jeito antissocial, avesso a entrevistas, inspirou o trocadilho Lobo solitário.

A solitude era, por sinal, também uma marca da mineira Maura Lopes Cançado, que, apesar da elogiada escrita, só teve publicados dois livros.

Muito do esquecimento de seu trabalho se deve ao estigma de sua loucura. Aos sete anos, a garota de família abastada de São Gonçalo do Abaeté, em Minas Gerais, recebeu o diagnóstico de esquizofrenia. Ao longo da vida, inventava histórias, era dada a arroubos e contava até que provocou o acidente de avião só para sentir a emoção da queda.

As internações psiquiátricas foram muitas e intensas, tanto que seus relatos sobre os tratamentos foram vertidos em seu livro "Hospício É Deus", publicado em 1965.

Mas não se trata de uma descrição de loucura. "Uma das coisas que mais me encantou foi a lucidez dela. E ao mesmo tempo Maura tem uma ironia com ela mesma. Eu me pegava em alguns momentos da leitura quase rindo", afirma a atriz Maria Padilha, que protagoniza "Diários do Abismo", adaptação do livro para o teatro.

Para verter o hospício ao palco, buscou-se um cenário não realista, explica o diretor Sérgio Módena. A cenografia de André Cortez traz camas de hospital feitas de espuma que também fazem as vezes de diário. Há ainda molduras de janelões, que lembram páginas de livros e também fazem a conexão de Lopes Cançado com o mundo externo e o mundo interno de sua loucura.

"Deus, para ela, é uma ideia que está além da nossa compreensão, a loucura é um estado que a gente não consegue compreender", diz Módena.

 

O Ator e o Lobo
Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, auditório 3º andar. Estreia qua. (13), às 20h30. Temporada de qui. a sáb., às 20h30. Até 6/4. Ingr.: R$ 7,50 a R$ 25. 14 anos

Diários do Abismo
Sesc 24 de Maio, r. 24 de Maio, 109. Qui. a sáb., às 21h, dom., às 18h. Estreia em 15/3. Até 7/4. Ingr.: R$ 12 a R$ 40. 12 anos

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.