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Antologia do humor russo mostra como riso questiona relações de poder

Traduzida direto do original, edição traz autores conhecidos e inéditos no Brasil

O escritor russo Dostoiévski
O escritor russo Dostoiévski - Roger-Viollet/AFP
Palmireno Moreira Neto

Antologia do Humor Russo (1832-2014)

  • Preço R$ 89 (568 págs.)
  • Editora 34
  • Organização Arlete Cavaliere

Qual é a verdade do humor? De que modo o riso está vinculado a uma sensibilidade cultural mais ampla? Por meio do cômico, a literatura pode oferecer uma interpretação singular do mundo?

Organizada por Arlete Cavaliere, professora da USP, a obra “Antologia do Humor Russo (1832-2014)” não pretende responder diretamente a essas questões. No entanto, elas atravessam a leitura dos textos escolhidos (traduzidos do original), que apresentam distintas expressões do burlesco na literatura russa, tais como a ironia, o ridículo, o absurdo e a paródia.

De Gógol, Dostoiévski e Tolstói a escritores inéditos no Brasil, o riso aparece como forma privilegiada de compreender ou questionar práticas sociais e relações de poder. Há algo que possa escapar do tratamento cômico? Não. Pelo menos, de acordo com um artigo de Maiakóvski incluído na coletânea: “Não há temas engraçados. É possível elaborar qualquer tema de modo satírico”.

Essa máquina do humor, que desperta frequentemente a censura oficial e perseguições políticas, é mobilizada para reinventar as próprias narrativas históricas da Rússia: “Certa vez, Stálin foi encontrar-se com Lênin no parque Górki. Viu que não havia ninguém ali e assassinou Lênin. O cadáver, enterrou silenciosamente. Voltou a Moscou e disse: ‘Lênin morreu. Deixou tudo para mim’”.

A anedota é parte de “Sete Novos Contos sobre Stálin”, de Dmitri Prígov, um dos autores selecionados que abordam o período soviético. Outro deles é Vladímir Voinóvitch, cujo olhar disseca o processo de construção da imagem pública do ditador russo. No final dos anos 1940, “havia Stálin de todo jeito: a cabeça de Stálin, o busto de Stálin, Stálin de corpo inteiro, Stálin de pé e sentado”.

No século 19, o Império Russo não escapou do procedimento humorístico. Em “O Órgãozinho”, capítulo de um romance, o satirista Mikhail Saltikov-Schedrin descreve a frustração e resignação de uma cidade após a descoberta da natureza acéfala do seu novo governante.

A comicidade também é expressa em textos que se debruçam sobre o cotidiano. Na carta de Marina Tsvetáieva expondo os contratempos ocorridos durante uma breve viagem a Genebra, na busca por afeto da protagonista da narrativa de Liudmila Ulítskaia ou no ensaio autobiográfico de Tatiana Tolstáia, voltado para as camadas do tempo e da memória. Ou mesmo na descrição das “zonas erógenas” de Moscou feita por Vladímir Sorókin. A lista é extensa.

Qual é a verdade do humor? “No mundo, há muita coisa misteriosa e incompreensível”, diz o personagem de um conto presente na antologia. Desde a Antiguidade, houve diversas tentativas de decifrar o enigma do riso. Se acreditarmos naquilo que Deus afirma ao Diabo em um dos últimos relatos da coletânea, talvez devamos continuar tentando: “A maldade sempre sente falta de uma teoria. A mentira sempre tem uma explicação longa. A verdade se deixa saber com meia palavra”. Essa “meia palavra” parece ser justamente o atalho do humor para construir a sua verdade.

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