Descrição de chapéu The Washington Post

Como é morrer em 'Game of Thrones'? Atores que viveram Ned Stark e Hodor respondem

Uma das principais marcas da série, que chega à última temporada, é a dizimação em série de personagens

Ryan Pfeffer
The Washington Post

Ian Beattie caiu no chão e ficou ali. Estava dividido em relação ao que aconteceria a seguir. Por um lado, estava exausto. As filmagens da cena da morte de Meryn Tryant, o personagem odioso que ele fazia em “Game of Thrones”, tinham começado às 8h, e agora já eram 21h. Ele passara as últimas dez horas com os olhos cobertos por ferimentos falsos, temporariamente cego, e sangue de mentira esguichava em seu nariz a todo momento.

Por outro lado, esse seria o fim. Nem sempre é assim que acontece, mas a cena da morte de Beattie seria sua última no set de “Game of Thrones. Por isso, por mais que estivesse ansiando por um banho quente, ele não queria ouvir o que o diretor David Nutter estava prestes a dizer: “Ian Beattie, participação encerrada na série.”

“Aquilo partiu meu coração”, diz Beattie. “Me pegou de jeito. Graças a Deus eu estava usando as próteses, assim ninguém pôde ver que eu estava chorando de verdade.”

Beattie faz parte de um clube não tão exclusivo assim: os atores mortos nas sete temporadas da série. Representando personagens que vão de figurantes anônimos a protagonistas amados, todos tombaram de maneiras diversas e violentas –e todos tiveram que se readaptar à vida normal depois de trabalhar em um dos seriados mais vistos do século.

“Game of Thrones” não é a primeira a se desfazer de personagens que pareciam indispensáveis, mas é a que o faz de modo mais prolífico. O personagem principal, Ned Stark, foi decapitado na primeira temporada, e desde então o programa vem basicamente dizimando seu elenco.

Pelo menos Sean Bean, que fez o patriarca da família Stark, sabia o que estava por vir, e isso parece ter ajudado a deixar o clima mais leve.

“Foi um dia até engraçado, na realidade”, ele conta. “Houve um momento em que eu estava andando por aí com minha cabeça nas mãos, dando risada.”

Bean achou original o fato de uma série ousar matar seu herói em tão pouco tempo. Mas nem mesmo ele teria conseguido prever o que estava por vir: “Não me dei conta de quão brutal seria ‘Game of Thrones’, em termos dos atores sendo dizimados”.

E, diferentemente de Sean Bean, muitos desses atores não sabiam que seriam trucidados. Quando um personagem notável vai ser vitimado, os roteiristas David Benioff e D.B. Weiss preferem dar a notícia ao ator pessoalmente. Às vezes isso é feito pelo telefone, às vezes em um jantar ou em uma reunião cara a cara.

“É uma ligação que você realmente não quer atender”, diz Beattie. “‘Você aceita participar de uma teleconferência com David e Dan?’. Nem pensar.”

Sibel Kekilli estava começando a pensar que talvez sua personagem, Shae, que se apaixonou por Tyrion Lannister antes de traí-lo na final da quarta temporada, teria uma chance de continuar viva.

“Eu estava prevendo que Shae morreria na terceira temporada”, ela conta. “Quando recebi o roteiro, pensei ‘legal, ela continua viva’.”

Então ela procurou Benioff e perguntou se Shae ia seguir um caminho diferente de sua história no livro, se conseguiria sobreviver.

Infelizmente, não, disse Benioff.

Já Kristian Nairn, muito antes de receber a notícia de Benioff e Weiss, já desconfiava que Hodor —o criado gentil que só conseguia pronunciar seu próprio nome— não viveria até o final da série. Parecia inevitável.

“Hodor era um dos favoritos dos fãs. Era um cara tão doce, tão gentil”, diz Nairn. “Eu sabia que não tinha como ele resistir até o final.”

Pode ser um pouco mais fácil morrer quando você já vai para o set com baixas expectativas. Rob Ostlere tem a honra de ter feito o primeiro personagem a morrer na série. Mais ou menos no sexto minuto da abertura gelada do primeiro episódio ele é cortado ao meio por um Caminhante Branco. Por isso mesmo, já sabia que sua permanência na série seria limitada.

“Para falar a verdade, quando você faz um daqueles papéis menores, simplesmente fica feliz de se ver na tela, porque às vezes essas cenas acabam sendo cortadas”, afirma.

Alguns dos personagem mortos não poderiam ser simplesmente esquecidos, é claro, mesmo que os atores quisessem. Jack Gleeson, que representou Joffrey Baratheon, de longe o personagem mais odiado de “Game of Thrones”, disse à mídia depois de deixar a série que não queria mais saber de grandes produções de televisão e cinema, citando sua aversão a se tornar uma obsessão cultural na tela e fora dela. Desde então ele vem se dedicando a trabalhos menores no teatro.

Mas Brenock O’Connor, surpreendentemente, não se abalou quando se viu em posição semelhante. Apesar de ter feito um teste para uma participação em apenas um episódio da quarta temporada, O’Connor, que viveu Olly, acabou sendo incluído em algumas das maiores tramas da série, como a morte de Ygritte e o assassinato de Jon Snow.

Isso se traduziu em mais problemas fora do set do que nele.

“Eu nem sequer tinha assistido ao episódio quando já recebi a primeira ameaça de morte”, ele conta.

Mais tarde, no mesmo dia, um colega do colégio mostrou uma foto a O’Connor: “Era meu rosto photoshopado no corpo de Hitler”.

No set, os atores são obrigados a ignorar —pelo menos temporariamente— o hype que cerca “Game of Thrones” para se concentrar em morrer a melhor morte possível. Natalia Tena, que fez Osha, a parceira selvagem de Bran Stark, sabia que teria um número limitado de tomadas para acertar a cena em que é apunhalada no pescoço por Ramsay Bolton. Se não conseguisse acertar, teriam que refazer sua prótese, e isso atrapalharia a programação do dia inteiro.

“Foi a cena tecnicamente mais difícil que já fiz. Então fiquei superfeliz quando fizemos certo", diz ela.

O’Connor chegou a se divertir na filmagem de sua morte. Mas sua mãe, que estava presente no set porque ele ainda era menor de idade na época, divertiu-se muito menos assistindo ao falso enforcamento de seu filho repetido em diversas tomadas. (A mãe de Nairn também não conseguiu assistir a seu filho sendo dilacerado pelos soldados rasos dos Caminhantes Brancos. Quando finalmente o fez, semanas mais tarde, ainda achou “horrivel, altamente perturbador”.)

Quando o diretor anuncia o fim de cada cena, é hora de encarar a vida real lá fora. A cena da morte de Kekilli acabou sendo sua última no set, mas não foi a última rodada naquele dia. Quando terminou, o resto da equipe teve de continuar trabalhando enquanto ela se preparava para partir. Foi a parte mais difícil —ser obrigada a ver todo o mundo seguindo adiante sem ela.

“Acho que é diferente quando todos terminam juntos, quando a série inteira chega ao fim. Você não está sozinha. Mas naquele dia só eu tive minha cena final. Não deu tempo de me despedir das pessoas. Eu me senti muito sozinha, muito mesmo”, afirma a atriz.

Ela só voltou a assistir à série no último ano. Era sofrido demais. Mas então não aguentou mais.

“As pessoas me diziam ‘ei, Sibel, um dragão morreu’. E eu falava ‘sério?’. Parece que o mundo inteiro está assistindo a 'Game of Thrones' e que você é a única pessoa que não faz parte dessa religião.”

Kekilli já viu quase todos os episódios que faltavam e agora está ansiosa para acompanhar a temporada final. Ian Beattie, também. Mas ele também ficou mal logo depois de deixar o set. Ele recorda que as primeiras semanas foram “realmente horríveis”. Ele não conseguia se interessar por projetos futuros. Sentia falta de seus amigos.

Beattie adora rever seus colegas de “Game of Thrones”. Ele lembra que em algum momento da sexta temporada topou no aeroporto com Kristofer Hivju, o ator de barba ruiva que faz o ainda vivo  Tormund Giantsbane. Eles nunca tinham se encontrado nas filmagens, mas isso não tinha importância.

“Olhamos um para o outro e na mesma hora trocamos um abraço apertado. Era como se ele fizesse parte da família”, diz Beattie. “É uma ligação fora do comum. E é algo que nunca vai desaparecer.”

Tradução de Clara Allain 

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