Nuno Ramos traz pinturas de quase 250 quilos em mostra

Obras da série 'Sol a Pino' são marcadas pelo excesso de cores e materiais

Vista de

Vista de "Sol a Pino", individual de Nuno Ramos no Galpão da Fortes d'Aloia e Gabriel Eduardo Ortega/Divulgação

Clara Balbi
São Paulo

"Bicho", desabafa Nuno Ramos, "se eu não pintasse, minha vida melhorava amanhã". O suporte no qual começou a carreira e que o alçou à fama, nos anos 1980, é descrito como caro, demorado, espaçoso.

É difícil, porém, explicar os trabalhos que Ramos expõe em "Sol a Pino", sua mostra individual no galpão da galeria Fortes D'Aloia & Gabriel, como simples pinturas. Usando uma técnica que não é nova em sua trajetória, os quadros sobrepõem camadas e camadas de materiais, que se projetam para fora da tela.

São tiras de feltro, pelúcia e matelassê, câmaras de pneu e placas de metal fundidas em encáustica. Excessivas, cada uma das composições pesa cerca de 250 quilos e é coberta por cores vibrantes.

"No auge do lulismo, quando o Brasil ia bem, fiz os urubus", diz Ramos, referindo-se à obra polêmica que ele apresentou na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010. Nela, três urubus vivos voavam entre as rampas do pavilhão, no parque do Ibirapuera.

"Na época, estava claro que precisava fazer alguma coisa pessimista. Agora, quis botar para cima", afirma.

Apesar da explosão de cores, as telas —fruto de um processo mais instintivo e menos cerebral do que o restante de sua obra, acredita o artista— não são de todo festivas. "São pinturas desesperadamente alegres", diz o artista. Se o sol a pino ilumina, ele também queima.

O lado mais soturno do artista também transparece na série "Antígona", inspirada na tragédia homônima de Sófocles.

Nos desenhos, um pó de grafite se espalha sobre o papel, soterrado por uma camada de terebentina, espécie de solvente. O pó funciona como metáfora para o desejo da personagem de enterrar o cadáver do irmão.

O clássico grego reaparece em uma das três performances "Aos Vivos", encenadas no ano passado e exibidas em vídeo na mostra. Nelas, atores reproduziam, ao vivo, os debates entre os então presidenciáveis transmitidos na TV.

Os intérpretes eram confrontados, porém, com a escolha entre o debate ou outros estímulos, como ler o texto de "Antígona". Uma saturação presente também nas pinturas.

Exposições

Nuno Ramos

Galerias
Grátis.

Na mostra, o artista, performer e ensaísta Nuno Ramos apresenta um conjunto de pinturas tridimensionais de 250 kg recobertas com elementos como placas de cobre, pelúcias e câmaras de pneus, além de uma série de desenhos e vídeos de performances recentes.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.