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Cinema

Longa sobre 'cura gay' é prazeroso, mas pouco libertador

'O Mau Exemplo de Cameron Post' consegue criar atmosfera de resistência à opressão

Melanie Ehrlich e Chloë Grace Moretz em cena de 'The Miseducation of Cameron Post', um dos filmes sobre fundamentalismo religioso

Melanie Ehrlich e Chloë Grace Moretz em cena de 'O Mau Exemplo de Cameron Post' Divulgação

Inácio Araujo

O Mau Exemplo de Cameron Post

  • Quando Estreia nesta quinta (18)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Chloë Grace Moretz, Sasha Lane
  • Produção EUA, 2018
  • Direção Desiree Akhavan

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Até algum tempo atrás, daria para incluir uma história dessas no catálogo dos exotismos americanos. O problema é que casos como esse, da “cura gay”, trocaram o anedotário nacional por postos-chave na organização de poder.

“O Mau Exemplo de Cameron Post” gira em torno de uma comunidade evangélica para onde é remetida a jovem Cameron. A instituição não funciona como a nossa, com pastores fazendo exorcismos na televisão. É mais sofisticada e mais hipócrita.

Mas existem alusões ao mal que habitaria os homossexuais. Estamos diante de uma sub-sub-psicanálise de uso específico: reforçar a culpa que os adolescentes trazem.

Digamos que o caso, então, é de uma cura não pela libertação, mas por seu oposto: quanto pior o paciente se sentir em sua pele, melhor. 

Não é difícil deduzir que tudo vai dar em besteira. Nem que o filme pode fazer bem ao adolescente oprimido pela suposição de que existe um comportamento normal em matéria de sexo e que seu corpo escapa a essa normalidade.

“O Mau Exemplo” é um desses filmes que constituem uma questão de educação sexual. Mas seria injusto limitá-lo. A diretora tem o mérito de juntar na mesma instituição pessoas com personalidades, problemas e respostas distintas, de modo a impedir que mergulhe na monotonia.

O filme sabe desenvolver suspense. Com um tanto de cálculo, cria personagem antipática o bastante (Coley, a psicóloga cujo autoritarismo se esconde atrás de palavras supostamente inspiradas por Deus) para ajudar a manter o interesse.

O centro, contudo, é Cameron: sua maneira de estar fora e dentro das coisas, de perceber ora vagamente, ora agudamente o que acontece. É em torno dela, de um corpo que sente desajustado, que tudo gira. 

O filme depende de Chloë Grace Moretz, que interpreta Cameron. E ela sabe como dar vida a suas dores e dúvidas. Depende, na mesma medida, de criar uma atmosfera de resistência à opressão.

Consegue? Consegue. É um filme a que se assiste com prazer. Mas, na linha de cinema de insubmissão, o “Dumbo” de Tim Burton é mais libertador e melhor cinema.

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