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Cinema

'Vingadores' não é o 'Cidadão Kane' do gênero nem uma tremenda chatice

Blockbuster da Marvel idolatrado por fãs derrapa no roteiro óbvio, mas empolga com pancadaria

Thales de Menezes
São Paulo

Não é fácil encontrar reações equilibradas para "Vingadores: Ultimato". Uma turma o classifica como um "Cidadão Kane" do gênero, um filme para redefinir a excelência do cinema de super-heróis. Outros acham que é uma tremenda chatice. Todos estão errados. É apenas um produto customizado, destinado a um único tipo de espectador.

O enredo tem boas soluções para a conclusão da luta dos heróis contra Thanos. Boas, mas não brilhantes. Para fãs de HQ, tudo soa óbvio num roteiro meio desconexo, sem uma narrativa esperta para superar momentos realmente entediantes. Mas, quando entra na pancadaria do bem contra o mal, empolga.

O filme é definitivamente uma segunda parte de "Vingadores: Guerra Infinita". As duas produções poderiam até ser vistas de uma vez só, se alguém fosse capaz de suportar um mastodonte de quase seis horas de duração.

Um dos problemas recorrentes do cinema de super-heróis é conseguir criar filmes que possam ser apreciados por gente que desconhece o universo dos quadrinhos. No caso de "Vingadores: Ultimato" a dificuldade é muito maior.

Além da necessidade de conhecer a trama que levou ao assassinato de metade da população do universo, incluindo boa parte dos heróis da Terra, convém o espectador ter afinidade com os personagens. Porque, em sua parte inicial, o novo filme só funciona ao cutucar a tristeza dos fãs. O enredo usa o luto como combustível emocional.

Por isso, "Vingadores: Ultimato" é o apogeu da customização cinematográfica. Impossível encontrar uma produção tão meticulosamente destinada a um público específico: quem tem coleções de gibis em casa ou assiste fielmente aos filmes da Marvel desde "Homem de Ferro" (2008).

O leitor que tenha qualquer implicância com filmes de super-heróis, por mínima que seja, deve procurar outra sessão para ver nas poucas salas que não estão exibindo a quarta aventura dos Vingadores. É um programa exclusivo para iniciados.

Perceber que várias cenas foram construídas para fazer o público chorar nem importa muito. Quase todos na plateia têm tanto carinho pelos heróis que a simples primeira aparição de cada um na tela causa frisson nas poltronas, com direito a lágrimas. Se o sujeito chora de emoção ao ver o Capitão América vivo e saudável, imagine quando alguém lembra que o Homem-Aranha morreu.

O destaque que o roteiro dá à "velha guarda" dos Vingadores faz muito sentido, sob ótica de mercado. Desde o ano passado, os gibis do grupo de heróis nos Estados Unidos também estão priorizando Capitão América, Thor e Homem de Ferro.

A razão: personagens antigos atingem mais gerações de leitores-espectadores. Fãs quarentões ou cinquentões gostam mais desse trio de heróis clássicos do que, por exemplo, os tipos engraçados dos Guardiões da Galáxia ou a poderosa Capitã Marvel. Os fanáticos mais jovens adoram todos.

Falando nos Vingadores originais dos anos 1960, a derrapada dos produtores no final desse ciclo dos heróis é o tratamento dado ao Hulk. Neste quarto longa, como no anterior, a participação do gigante verde é, no mínimo, subestimada, até equivocada. Parece que os roteiristas não souberam como encaixar o personagem.

Para chegar ao trecho final da aventura, quando as lutas são fartas e incendeiam a plateia, o filme obriga quem assiste a encarar duas horas arrastadas. Mas o problema não está apenas na falta de ação.

"Vingadores: Ultimato" expõe sem atenuantes a principal questão mal resolvida dos filmes da Marvel: a dosagem de humor. Nos dois primeiros filmes dos Vingadores, as piadas são poucas e sempre soam forçadas nos diálogos, mal conectadas ao roteiro. Em "Thor: Ragnarok", a opção foi escracho total e a proposta de ridicularizar Thor e Hulk não foi bem recebida.

Agora, a inclusão de piadinhas é excessiva. Não deixa de ser estranho um filme que começa num ambiente de depressão e melancolia, praticamente velando mais de uma dúzia de heróis mortos, apresentar tantas piadas. Nem todas funcionam, mas mesmo as engraçadas parecem elementos estranhos a uma trama com vocação sombria.

Recorrendo aos critérios de avaliação para os filmes, seria correto dizer que "Vingadores: Ultimato" pode ser "ótimo" para iniciados e "péssimo" para pessoas normais. O crítico recorre a uma média ponderada para classificá-lo como "bom". Bom para quem gosta.

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