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Cinema

'A Menina e o Leão' deixa um gosto de propaganda enganosa

Filme sobre relação de garota com um felino se mostra mais publicidade do que cinema

Bruno Molinero

A Menina e o Leão (Mia et le Lion Blanc)

  • Classificação 12 anos
  • Elenco Daniah De Villiers, Mélanie Laurent, Langley Kirkwood
  • Produção França, 2018
  • Direção Gilles de Maistre

Existe uma velha regra no mundo da publicidade que organiza as coisas mais ou menos desse jeito: se você quer anunciar qualquer coisa, primeiro contrata (e paga) uma agência, que vai comprar espaço nas mídias para exibir o anúncio. O público, que a princípio não tinha ido em busca daquilo que motivou a publicidade, é então exposto a ela (e não paga por isso).

É claro que as coisas hoje em dia são mais fluidas e essas fronteiras já não são tão precisas, com diversas propagandas travestidas de conteúdo e vice-versa. Há quem consiga fazer isso bem e deixar todo mundo feliz. Mas há aqueles que erram na fórmula e criam uma sensação de que estamos pagando caro para assistir apenas aos comerciais. É o caso de "A Menina e o Leão".

O filme, que estreia no Brasil nesta quinta (9), até gera alguma simpatia no início.

​Na história, conhecemos a menina Mia (Daniah De Villiers), que se muda com a família em definitivo para a África do Sul, onde tentarão construir uma espécie de santuário para leões com um modelo de negócio financiado pelo turismo. 

Rebelde, malcriada e resistente à mudança, a garota se transforma completamente quando nasce Charlie: um filhote branco de leão. Fofo e carente, ele dobra a sisudez da menina, que passa a esboçar os primeiros sorrisos no filme. 

Até aí, tudo bem. É aquele sinopse média de "Sessão da Tarde", perfeita para crianças assistirem enquanto tomam um achocolatado e esfarelam no sofá umas bolachas recheadas —só que, em vez de um cachorro qualquer, temos estampado na tela um felino com garras e presas afiadas.

É depois de um lenga-lenga sobre a impossibilidade de criar um predador como animal doméstico que as coisas começam a ficar estranhas. Quando Charlie já se encontra a salvo de uma confusão que envolve caçadores e um sistema corrupto, surge uma tela preta com avisos em branco.

As frases que brotam aos olhos nos ensinam que muitas propriedades turísticas da África do Sul são engrenagens de um sistema que favorece caçadores ilegais de diferentes países.

Embora o tom professoral estranho a uma obra audiovisual de ficção, a tendência do espectador é perdoar a interferência. Afinal, a acusação parece grave o suficiente para que a plateia faça certas concessões.

Mas, em seguida, vem a gota d'água: o filme sugere que você doe algum dinheiro para uma fundação não sei das quantas que protege leões na África. Pois é: estamos diante de uma peça publicitária. Toda essa historinha de leão, menina rebelde, amor entre espécies é marketing. Pagamos R$ 40 em um ingresso de cinema, mais R$ 20 em um combo de pipoca pequena e refrigerante, para ver o vídeo institucional de uma ONG —e só ficar sabendo disso uma hora e meia depois.

É como se você fosse obrigado a pagar para saber que a Bettina tem 22 anos e R$ 1 milhão de patrimônio acumulado. Ou, para os que ficaram apegados ao mundo do marketing fofinho, fosse forçado a desembolsar uma grana para saber que tartarugas comem plástico nos oceanos e crianças passam fome em algum lugar distante (veja bem: pagar para saber como pagar para ajudar as tais tartaruguinhas e as crianças).

Para quem queria assistir a uma obra cinematrográfica, o longa deixa um gosto de propaganda enganosa.

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