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Artes Cênicas

Antunes Filho foi o grande mestre da atuação no teatro brasileiro

Diretor nunca deixou de acreditar no país ou no ofício teatral

Nelson de Sá

Em setembro passado, às vésperas de completar 89 anos, Antunes Filho me recebeu para uma conversa, no intervalo dos ensaios de sua última encenação, “Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse”.

Ele estava em choque, como todo o país, com o incêndio do Museu Nacional. Mas se recusava a desistir, dizia estar no trabalho, porque “o momento é decisivo”. Até o final, o diretor não deixou de acreditar no Brasil ou no ofício do teatro. A nova montagem era sobre esperança, dizia.
 

Por pelo menos duas décadas, este jornalista e outros o cercaram para que desse uma forma final ao seu 
método de formação de atores e de interpretação, mas ele se recusava. Reclamava que, se o fizesse, seria o mesmo que morrer.

Queria se manter sempre aberto, para mudar, tentar novos caminhos, aceitar novas influências. Gostava de arriscar, a ponto de ter estreado como autor com uma peça sobre Lamartine Babo, um musical, aos 80 anos.

Foi o grande mestre da atuação no teatro brasileiro, talvez seu legado mais fulgurante. Formou gerações no Centro de Pesquisa Teatral, atores e atrizes que seguiriam depois para carreiras firmes em outras companhias e no cinema ou televisão.

Tanto quanto as vertentes e os artistas pelos quais se deixou influenciar, como o amigo Kazuo Ohno, do teatro butô, o professor e diretor Antunes se voltava para as exigências de comprometimento e aceitação de valores pelos discípulos.

Celebrizou um conflito com Luís Melo, um dos maiores atores que saíram do CPT, em que questionava a prioridade que este supostamente teria dado a bens materiais, eletrodomésticos, sobre a dedicação ao palco.

Havia muito de teatral, de mensagem para um público mais amplo, nos embates em que Antunes se colocava. Durante anos, questionou a falta de rigor que enxergava em atores de outros grupos.

Como diretor, propriamente, deixou o marco histórico de “Macunaíma”, adaptado de Mário de Andrade, que divide com “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, o ponto de inflexão em que o diretor tomou de vez o protagonismo do teatro no país.

Até então, ele mesmo dizia, apesar das eventuais montagens de risco, que havia aceitado os parâmetros do teatro comercial. A partir de “Macunaíma”, com apoio de Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc, não mais.

Ao longo da década seguinte, com encenações como “Paraíso, Zona Norte”, tomou do Rio de Janeiro o maior autor teatral do país, Nelson Rodrigues, para buscar e encontrar nele o que tinha de universal, não só carioca.

Foi assistente e formado, ele também, pelo diretor polonês Ziembinski e “todos os italianos”, como dizia, do Teatro Brasileiro de Comédia. Tinha um carinho especial por Ruggero Jacobbi, o mais engajado, esquerdista. 

Politicamente, estava também à esquerda, mas se dizia sobretudo um democrata, tendo passado mais de uma vez por ditadura.

Naquela tarde de setembro, na sala de ensaios, falou sobre a morte, que queria que fosse trabalhando. “O Molière é que tinha razão. Tem que morrer nas tábulas, no palco.”

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