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Cinema

'Ma' faz espectador se embananar sem saber para que lado vai

Filme com Octavia Spencer se perde entre drama psicológico, terror e questões raciais

Inácio Araujo

Não se diga que “Ma” não poderia ser um filme interessante. Ele está centrado em Sue Ann (Octavia Spencer), mulher negra que vive numa cidadezinha americana, onde trabalha como assistente em uma clínica veterinária. Ela é mais conhecida pelo maternal apelido de Ma pelos adolescentes do lugar, para quem ela se dispõe a comprar bebidas (a venda é proibida a adolescentes) e a quem acolhe em sua casa.

Com efeito, ela parece ser a mãe que, por uma razão ou outra, falta à garotada local. Logo veremos que algo soa falso em tudo isso, pois ela leva os adolescentes até o porão de sua casa, que 
fica fora da cidade, e lhes diz que não devem subir à parte de cima, ao seu mundo. 

Qualquer “teen” de qualquer idade que já tenha visto um filme de terror saberia que está entrando em uma roubada. Mas esses, é claro, se deixam inebriar pela bebida e pelos modos liberais de Ma.

Bem, o fato é que Sue Ann tem um passado de adolescente também. E, nesse passado, ela foi humilhada e desprezada pelos colegas de escola e, depois, ignorada pela comunidade local. Não se fala explicitamente, mas eis um caso em que o bullying tem tudo a ver com a cor da pele da vítima. O desprezo de que a moça é objeto pelos colegas está diretamente ligado à sua cor.

Ou seja, Sue Ann está lá para se vingar. Mas quem será o objeto dessa vingança? E até que limite levará o ódio reprimido?

Esses são dois pontos de atração para os quais o argumento do filme aponta e que servem muito mais para elidir a questão racial do que para criar situações de suspense e terror, que são, de modo geral, fracas (melhoram apenas no quarto final do filme).

Pode-se até passar por cima de uma série de incongruências no roteiro, como o fato de Sue Ann passar a vida inteira naquela cidadezinha e não ter, aparentemente, ligação nenhuma com seus ex-colegas.

Isso não é problema. O problema é o filme não saber para que lado vai. 

Será um drama psicológico (ou psicótico?) embutido em uma história de adolescentes? Um filme de 
terror padrão, em que adolescentes se veem sozinhos por longo tempo em situação de extrema fragilidade? Ou, finalmente, o que seria mais interessante, um filme sobre a questão racial?

“Ma” belisca aqui e ali, sem renunciar nem por uma cena à sua mise-en-scène burocrática. A isso virá se acrescentar o que pode talvez ser o pecado capital em termos de um filme comercial: se “Ma” constrói uma personagem disposta a pôr em prática todas as perversidades do mundo (não importa qual é a razão dela para isso), não é boa política fazer com que essa criatura pareça simpática ao espectador.

Ora, a personagem de Sue Ann desperta nossa simpatia e, em certos momentos do filme, até alguma 
compaixão. Talvez isso sirva para contentar a atriz central, Octavia Spencer. 

Porém, a menos que o filme seja realmente interessante, o que está longe de acontecer aqui neste caso, isso retira eficácia do resultado final. O espectador se embanana, sem saber para que lado torcer, sem nada lhe acrescentar de uma ambiguidade que chega a ser sugerida, mas nunca chega efetivamente a ver a luz do dia.

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