Mamulengos inspiram espetáculo da companhia Cisne Negro e da Pia Fraus

'Goitá', fantoches tradicionais nordestinos, estreia nesta quinta (9) no Sesc Pompeia

Iara Biderman
São Paulo

Seu Antônio, o sanfoneiro, abre o cortejo de bailarinos dançando em frente às barracas de uma feira. O roteiro é semelhante às apresentações tradicionais dos mamulengueiros, criadores dos fantoches da cultura popular nordestina.

Esse repertório é a inspiração de “Goitá”, novo espetáculo da Cia. de Dança Cisne Negro e da Pia Fraus, que estreia nesta quinta (9) no Sesc Pompeia.

Na feira moderna da dança, os mamulengos ganham os corpos e os movimentos de bailarinos contemporâneos ao som do nordestino pop do Quinteto Violado.

Fora de cena, Seu Antônio trabalha como porteiro da Cisne Negro, companhia atuante há 42 anos. A escolha do sanfoneiro e da trilha com músicas do quinteto pernambucano foi de Dany Bittencourt, diretora do grupo de dança fundado por sua mãe, Hulda Bittencourt.

Já a ideia do espetáculo veio de Ana Catarina Vieira. Ex-integrante da Cisne Negro e da Pia Fraus, ela teve o insight ao lembrar de uma cena de “O Quebra Nozes”, quando o boneco vira príncipe. O balé natalino composto por Tchaikovsky é o carro-chefe da companhia de dança paulistana, apresentado todo dezembro na capital, há 35 anos.

Juntando a experiência de Ana Catarina na construção de uma linguagem contemporânea para danças populares e as pesquisas com teatro de bonecos de Beto Andreetta, diretor da Pia Fraus, “Goitá” começou a ser construído.

Glória de Goitá, a 60 Km de Recife, é chamada a capital brasileira do mamulengo. A dramaturgia criado por Andreetta mistura uma história clássica do teatro popular com o cotidiano de uma feira no Nordeste brasileiro.

Chitas, cabaças, panelas de alumínio e colheres de pau recriam uma feira “pré plástico”, segundo o dramaturgo. Um lugar quase real no imaginário de um Brasil que era feliz.

No país atual, a dança festiva e as histórias naifs dos bonecos servem como um respiro para Ana Catarina. “As coisas estão tão pesadas que precisamos nos juntar e dançar”, diz a coreógrafa.

Concebido em um Brasil já não tão feliz, “Goitá” só conseguiu ser montado com a ajuda do Sesc, que comprou a ideia e o espetáculo, conta Hulda. É o que vem acontecendo com boa parte da produção de dança nacional.

No caso da Cisne Negro, a manutenção da companhia com um elenco fixo de 13 bailarinos vinha sendo realizada por patrocinadores via Lei Rouanet. Mas, embora com captação já aprovada pela lei, ainda não apareceram patrocinadores para este ano.

“Estamos usando o que sobrou do ‘Quebra Nozes’”, diz Dany.

Mesmo assim, a parte triste passa longe da cena. É uma alegria acompanhar a saga dos bonecos, encomendados por Andreetta aos artesãos de Glória de Goitá, e sua transformação em corpos dançantes, com panelas, guarda-chuvas, peneiras, cabaças e buchas vegetais fazendo dos bailarinos onça e cobra, coronel e índio, boiadeiro e boi-bumbá.

A dança se vale da alegria espontânea das festas populares, do xote, xaxado, frevo e baião, maracatu e cavalo-marinho. Mais de uma dezena destes tipos de ritmos e seus passos se combinam no espetáculo, finalizado também em clima festivo com uma chuva de lantejoulas grudando nos corpos suados dos artistas.

Dança

Goitá

Contemporânea
até R$20

O espetáculo, parceria da Cisne Negro Cia. de Dança com a companhia infantil Pia Fraus, recria o universo da cultura popular brasileira por meio de bonecos mamulengos, que atuam como bailarinos.

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