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Cinema

'Os Papéis de Aspern' desperdiça presença de Vanessa Redgrave

Estreia do francês Julien Landais na direção enfatiza o desnecessário

Os Papeis de Aspern (The Aspern Papers)

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Jonathan Rhys Meyers, Vanessa Redgrave, Joely Richardson
  • Produção Alemanha, 2018
  • Direção Julien Landais

Jeffrey Aspern foi um poeta romântico, morto prematuramente e dono de uma obra de valor incalculável. Tanto que o editor Morton Vint (Jonathan Rhys Meyer) dispõe-se a enfrentar a retiradíssima Juliana Bordereau (Vanessa Redgrave), que foi em remoto passado musa e amante do célebre poeta, na tentativa de pôr as mãos em preciosos textos inéditos e guardados a sete chaves pela sra. Bordereau. Quem ajuda o editor na difícil aproximação é Tina (Joely Richardson), sobrinha da sra. Bordereau.

Digamos para começar que a trama se passa na Veneza do fim do século 19. Um tempo em que a cidade abrigava palácios suntuosos, aristocratas, pontes desertas, canais silenciosos. Ou seja, o oposto de hoje. Não deixa de ser uma atração do filme ver essa Veneza com a qual os turistas sonham e que o turismo mesmo estraçalhou. Infelizmente, talvez seja a única.

Para começar, e apenas em termos de intriga: tudo se passa em torno da posse e da possibilidade de ver (e se possível editar) os papéis que a sra. Bordereau deseja que permaneçam secretos. É o que Hitchcock chamaria de promissor McGuffin: algo que interessa muito aos personagens, mas nada ao espectador.

 

Espera-se que outros aspectos da trama possam dizer respeito ao espectador. O que mais pode nos interessar é Tina, mulher de meia-idade cuja beleza incontestável murchou em decorrência de sua absoluta dedicação (mais exatamente: submissão) à tia. São seus secretos desejos, arrependimentos, recalque por uma vida perdida na dedicação à mítica tia.

Tina projeta seus desejos na figura do sr. Vint. Mas ela e seu drama logo passam a um discreto segundo plano. Vint parece mais um vampiro interessado em tocar nos inéditos de Aspern como se aquilo fosse o sangue de uma virgem. É movido por sua ambição empreendedora, é tudo: visa o lucro da custosa operação (sair dos Estados Unidos, instalar-se em Veneza etc.). O interesse cultural da possível publicação é meramente acessório.

Ora, a sra. Bordereau, para começar, considera insuportavelmente decadente tudo que não diga respeito a seus tempos de juventude. Inclusive Vint, é claro. Fechada em sua sala, imobilizada em uma cadeira de rodas, parece receber Vint apenas para melhor humilhá-lo. E, claro, para pôr em dia suas memórias, que aparecem em flashback de tempos em tempos e, por vezes, lembra publicidade de sabonete. Mas, que importa, ela serve para mostrar como o poeta era belo e charmoso e a sra. Bordereau idem.

Se o tempo preservou na sra. Bordereau algo de sua antiga beleza, interior e exterior, não saberemos jamais, já que todo o tempo Vanessa Redgrave permanece escondido, e apenas vez por outra vislumbramos seu rosto. É uma mulher que não quer ser vista nem quer ver o mundo novo que se anuncia naquele momento. Mas, nesse caso, por que miss Redgrave no papel da aristocrata?

Para resumir, a estreia do francês Julien Landais na direção enfatiza o desnecessário, passa batida pelo relevante, desperdiça Vanessa Redgrave e nem ao menos explora características das duas épocas concernidas. Em definitivo, está longe de ser feliz, em especial num ano que, entre filmes brasileiros e estrangeiros, tem sido até aqui bem animador.

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