Descrição de chapéu Livros Flip

Na esteira de Chimamanda, jovens escritores da Nigéria são lançados no Brasil

Ayobami Adebayo, uma das escritoras publicadas no país, é confirmada na Flip

Bruno Molinero
São Paulo

Na costa oeste da África, a Nigéria se abre para o mundo a partir de um litoral à beira do Golfo da Guiné. É desse ponto que seus escritores costumam alcançar outros países —como se fossem ondas do mar.

A primeira onda foi a da geração de Wole Soyinka, que seduziu leitores sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, a ponto de o escritor e dramaturgo receber o Nobel de literatura em 1986. É dessa geração também Chinua Achebe, morto em 2013 e considerado um dos fundadores da moderna literatura nigeriana.

A segunda leva está mais para tsunami e tem nome e sobrenome: Chimamanda Ngozi Adichie. A escritora e ativista conquistou livrarias mundo afora e se tornou best-seller no Brasil, onde ganha impressões atrás de reimpressões dos seus sete livros publicados aqui —destaque para o ensaio “Sejamos Todos Feministas”, lançado em 2015 pela Companhia das Letras, que já foi reimpresso 14 vezes.

O sucesso foi como uma dessas ondas gigantes que trazem outras a reboque. Seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos, uma nova geração de escritores nigerianos vem se destacando entre editoras e leitores.

A escritora nigeriana Ayobami Adebayo
A escritora nigeriana Ayobami Adebayo, confirmada na Flip deste ano - Eniola Alakija/Divulgação

Quase todos orbitam os seus 30 e poucos anos de idade e mesclam a tradição da África oral com questões contemporâneas e, de certa forma, universais —da intolerância e violência do grupo terrorista Boko Haram à poligamia, do feminismo ao ciúme.

Um dos destaques é Ayobami Adebayo. Aos 31 anos e autora de um só romance, “Fique Comigo”, da HarperCollins, a escritora é o 11º nome confirmado pela Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. O evento ocorre neste ano entre os dias 10 e 14 de julho.

“É um momento empolgante. Embora seja tentador especular razões de por que a literatura nigeriana passa por esse fenômeno, acho que ainda é difícil dar qualquer explicação confiável”, diz Adebayo.

Em “Fique Comigo”, a autora narra a história de Yejide e Akin, um casal que ano após ano não consegue ter filhos. Por causa disso, a família de Akin acaba aparecendo com uma segunda mulher para ele.

Embora a narrativa se desenrole nos anos 1980, quando o país passava por uma ditadura militar, Adebayo acredita que poucas coisas mudaram na Nigéria de lá para cá. "Infelizmente, muitos problemas estruturais mostrados no livro ainda não foram resolvidos."

Adebayo não está sozinha nessa nova geração de escritores. Da produção nigeriana atual, a Rocco lançou no ano passado “Children of Blood and Bone”, de Tomi Adeyeme, uma fantasia inspirada na mitologia iorubá que passou mais de quatro meses na lista de mais vendidos do jornal The New York Times.

Já a Record adquiriu os direitos de duas trilogias de Nnedi Okorafor —a intergaláctica “Binti” e a fantasia “Akata Witch”. Outro romance da autora, a ficção científica “Quem Teme a Morte” (Geração Editorial), vai virar uma série produzida por George R. R. Martin, autor dos livros que inspiraram a série “Game of Thrones”.

“É pela literatura que o continente africano acaba chegando ao Brasil. Não é pelos livros de história ou pelos jornais. Essas narrativas, que tratam de dilemas universais com cores locais, são portas para acessar a dinâmica dessas sociedades”, acredita Luiza Reis, historiadora e professora da Universidade Federal de Pernambuco. “Isso ajuda a explicar o sucesso.”

Chimamanda Ngozi Adichie
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie - Victor Ehikhamenor

Não é só um êxito de vendas, mas de crítica. “Minha Irmã, a Serial Killer”, recém-publicado no Brasil pela editora Kapulana, por exemplo, é um dos seis finalistas do Women’s Prize for Fiction, um dos mais importantes prêmios literários do Reino Unido. 

Primeiro romance da autora Oyinkan Braithwaite, de 30 anos, o título usa como pano de fundo uma sociopatia para falar de maneira ácida sobre a relação de duas irmãs com personalidades opostas.

“Outra característica dessa produção contemporânea é a grande quantidade de escritoras. Elas buscam um público jovem, mas sem deixar de lado um texto muito bem escrito”, avalia Rosana Weg, editora da Kapulana.

Em agosto, o selo vai publicar também “Água Doce”, de Akwaeke Emezi, autor nigeriano não binário que tem como proposta levar essa multiplicidade de gênero à literatura.

Na visão de Weg, o fato de todos esses nomes escreverem em inglês ajuda na difusão dos livros ao redor mundo. “Eles têm acesso a diversas agências dos Estados Unidos e da Inglaterra, que acabam trabalhando bem as suas obras. Fora isso, há mais facilidade de serem traduzidos.”

Ex-colônia britânica, a Nigéria conseguiu a sua independência em 1960 e logo entrou em uma ditadura militar que acabou só nos anos 1990. “Como os editores americanos e ingleses de certa forma dão as cartas no mercado global, eles ajudam a impulsionar esses autores”, confirma Otávio Costa, publisher da Companhia das Letras.

A editora, que publica no Brasil os livros de Chimamanda, planeja um inédito da autora para o segundo semestre —“O Perigo da História Única”, editado a partir de uma fala da escritora na série de conferências TED há dez anos.

“Há no Brasil uma busca por narrativas que escapem do cânone, seja ele geográfico ou social. É uma curiosidade de conhecer novas vozes, novas realidades”, continua Costa.

É a mesma sensação de Gustavo Lembert, um dos fundadores da TAG Experiências Literárias, que no ano passado distribuiu “Fique Comigo”, de Ayobami, com exclusividade para seus assinantes, alcançando 12 mil exemplares. O livro chega agora às livrarias.

Outra nigeriana inédita no país, Buchi Emecheta chegou a 30 mil exemplares por aqui com dois livros distribuídos pela TAG e editados pela Dublinense. Após o sucesso, mais duas obras foram adquiridas.

“Dos países africanos, a Nigéria é a que mais despertou curiosidade nos leitores. Tanto que planejamos novos livros”, conta Lembert.

Tudo indica que novas ondas literárias virão do Golfo da Guiné.

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