Peça cria metáfora para uma humanidade perdida

Em 'A Desumanização', adaptação para livro de Valter Hugo Mãe, menina perde sua irmã gêmea

As atrizes Fernanda Nobre e Maria Helena Chira em cena de 'A Desumanização' - Lenise Pinheiro/Folhapress
Gustavo Fioratti
São Paulo

 “O inferno não são os outros. Eles são o paraíso, filha, porque um homem sozinho é apenas um animal.”

Essa é uma frase que a protagonista de “A Desumanização” —livro de Valter Hugo Mãe adaptado agora para o palco com direção de José Roberto Jardim— se recorda de ouvir da boca de seu pai.

A peça estreia neste fim de semana no Sesc Santana.

Referência óbvia à famosa sentença de Jean-Paul Sartre —“O inferno são os outros”— o trecho reflete algum otimismo de Hugo Mãe.  Mais recentemente, o autor voltou à ideia batizando um outro livro com o título “O Paraíso São os Outros”.

Como ele próprio já disse em entrevistas, “é muito mais esperançoso achar que a humanidade é um projeto que está adiado, do que achar que a humanidade é isto”. 

Era um comentário para a ideia de que “a humanidade ainda está por vir “—e ela seria “uma construção intelectual”.

Esse seria um norte possível para ver a peça, que desdobra sua protagonista em duas. À sombra da morte de sua irmã gêmea, a personagem persegue uma profunda crença nos outros. Ainda dirá em cena que “a beleza da lagoa é sempre alguém; a beleza da lagoa só acontece porque podemos compartilhar”.

Quando o livro começa, a personagem está com 11 anos. Quando termina, já fez 13. Ela passa seu olhar por uma rede de relações familiares, sempre a partir do adoecimento —e depois da morte— da irmã.

Compõe-se uma construção metafórica, e especialmente o título nos confronta com essa possibilidade. 

Onde residiria a tal desumanização? Existe uma chave para compreender o paradoxo proposto por Hugo Mãe nos diálogos da protagonista com seu pai. “A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em você!”

Em outro trecho, a protagonista diz que “em alguns casos de morte entre gêmeos, o que sobra vai morrendo num certo suicídio.”

Na adaptação de Fernando Paz, essa protagonista não é mais uma narradora infantil, marca lírica do original. Ela está madura, o que se constata por meio da representação das duas atrizes em cena. Fernanda Nobre e Maria Helena Chira têm ambas 35 anos. 

No jogo da duplicação, essa protagonista carrega em si um espelhamento de si própria e também um fantasma. Outro detalhe da adaptação, ela não está mais no vilarejo em que nasceu, na Islândia. Distante do berço, ocupa agora um apartamento de decoração popular e minimalista.

“Vamos recriar a personagem 20, 22 anos após ela sair dessa vila”, diz Jardim. “Tudo está no passado, então vamos trazer a história como um resgate de memória, um dia D em que ela vai ter que se confrontar com seus demônios”.

Jardim retorna, com o trabalho, a um espetáculo de câmara, centrado em uma partitura de poucos elementos. Ele dirigiu peças como “Adeus, Palhaços Mortos” e “Chet Baker, Apenas um Sopro”. 

Nas evocações de seus fantasmas, é na figura da tia que a protagonista encontra um esvaziamento anímico, também remetendo ao título. 

“Ela acreditava nas ideias mais delirantes do mundo. Afirmava que as guerras mundiais não tinham existido. Tinham servido apenas para mandar os homens para lugares quentes, deixá-los com fome e sede, para depois dar a eles Coca-Cola num golpe publicitário sem precedentes. A Coca-Cola inventou a Primeira Guerra Mundial", e a este trecho do original, a adaptação inclui: "o nazismo é de esquerda, e a Terra é plana”.

Hugo Mãe escreveu o livro em uma residência na Islândia, e a obra foi publicada em 2013. Desde 2014, Chira tinha vontade de investir em uma adaptação. Ela agora vê que as mudanças no contexto político deram novos significados ao texto, revigorando questões sobre a identidade feminina e sobre a opressão. 

E é, contudo, na figura de uma mulher, a tia, que há uma associação mais forte com o avanço de ideias radicalmente opostas ao sentido de humanismo. “Essa tia tem um discurso que parece reproduzido hoje, se a gente tivesse feito em 2015, isso não estaria tão evidente”, diz Chira.

A Islândia é referenciada não apenas pelo design do mobiliário, mas também na trilha sonora de Marcelo Pellegrini. Ele recorre a referências pops, como Björk e Sigur Rós, mas também a sonoridades que remetem a uma paisagem gelada, porém cravada com a irrupção de vulcões.  

A Desumanização

  • Quando Sex. e sáb., 21h; dom., 18h
  • Onde Sesc Santana - Av. Luiz Dumont Villares, 579
  • Preço R$ 40
  • Classificação 16 anos

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