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Televisão

'Game of Thrones' chega ao fim com roteiristas como vilões

Sanguinolência de Daenerys não deveria ser surpresa na reta final da série

Luciana Coelho

​Quando acabar, na noite deste domingo (19), “Game of Thrones” poderá deixar dois grandes vilões para o panteão da dramaturgia televisiva e uma lição fundamental. Surpreendentemente, porém, esses malvados não disputam o cobiçado Trono de Ferro.

​D.B. Weiss e David Benioff —quebradores de tradições folhetinescas, divisores de trincheiras internéticas, protetores do legado de Shakespeare e pais de todas as tretas— são os roteiristas da série da HBO, até agora o maior fenômeno pop desta década.

Emilia Clarke no quinto episódio da última temporada de "Game of Thrones"
Emilia Clarke no quinto episódio da última temporada de "Game of Thrones" - Reprodução

São, também, estopim da Última das Grandes Guerras Online, entre os povos que adoraram o fato de uma suposta mocinha, Daenerys Targaryen, ascender a grande vilã, demonstrando que o poder corrompe (neste caso, também queima impiedosamente), e aqueles que se decepcionaram porque a veem como messias.

Os mais pedantes dirão que esses últimos são bárbaros que não prestaram suficiente atenção ao desenrolar dramatúrgico da personagem.

O desgosto com o desfecho foi tamanho, porém, que foi aberta uma petição online para exigir a reescrita e a refilmagem da última temporada. Na antevéspera do episódio final, as assinaturas no pedido superavam 800 mil.

Há queixas sobre o ritmo do roteiro, que nesta oitava temporada passou de uma lentidão absoluta (dois episódios inteiros, um deles de 80 minutos, para retratar algumas horas na trama) para um salto de tempo mais surpreendente do que aquele dado pela personagem Arya para matar o Rei da Noite, até então o grande vilão-zumbi em cena.

As críticas mais abrasivas, contudo, se concentram na personagem Daenerys, vivida pela atriz Emilia Clarke. Autoanunciada libertadora de povos sob a tirania, Daenerys proclama que tem direito ao trono para fazer o bem. Mesmo que, para isso, precise matar milhares de civis.

A genialidade de “Game of Thrones” sempre foi sua atualidade política e as provocações que infundiu em um enredo que, de outra forma, poderia se passar por fantasia.

Daenerys é, pois, uma representação desbragada da doutrina do destino manifesto, aquela usada pelos Estados Unidos para arrogar-se a missão de invadir países e começar guerras se o intuito fosse difundir o “bem”, ou aquilo que é o “bem” dentro de seus próprios valores.

A doutrina é do século 19, e resquícios sob nomes atuais como “responsabilidade de proteger” ressurgem nas décadas recentes em guerras como a do Iraque (2003-11).

De qualquer forma, se alguém nutria dúvidas sobre o estofo político da série, elas deveriam ter sido aniquiladas na cena do penúltimo episódio em que Daenerys cita a segunda frase mais conhecida de Maquiavel (1469-1527).

Em um diálogo com Jon Snow —agora seu sobrinho, amante e rival—, a personagem lamenta não ser suficientemente amada naquela parte do mundo que pretende governar e da qual sua família fora desterrada. Se não vai conquistar súditos por amor, conclui: “Que seja pelo medo”.

A mãe dos dragões, para citar arquétipos femininos de poder, sempre foi simultaneamente “puta” e “santa”. Seu epíteto une uma palavra que é sinônimo de acolhimento, “mãe”, a outra que denota ameaça/medo, “dragões”. 

Estava lá desde o início, exposto. A personagem já havia dizimado reinos e destruído inocentes em outras temporadas da série. Suas promessas de salvação ladeavam as de vingança sanguinolenta.

Entretanto, o afã de acreditarmos em salvadores somado ao fato de acharmos incondizente com um governante a tibieza de Jon Snow —o personagem interpretado por Kit Harington que vai de bastardo a herdeiro legítimo do trono em oito temporadas— levou muitos espectadores a ignorarem essa dualidade de Daenerys, desde o início determinada e equipada para reinar.

É aí que entra mais um dos ecos atuais da série de TV.

 

Ao avançarem temporalmente no enredo em relação à série de livros que os inspirou, escritos pelos procrastinador George R. R. Martin, Benioff e Weiss tomaram de base a onda populista que acomete o mundo —os dois costumam ressaltar esse caráter político em entrevistas diversas.

Não só do ponto de vista dos governantes atuais, que apesar de seus rompantes não podem ser comparados com tiranos sanguinários do passado, como do povo/eleitor, que anseia por respostas rápidas, que ainda acredita em messias, que continua a achar que há gente incumbida por deuses de tirar povos de buracos ou libertá-los de grandes males com soluções mágicas.

Mesmo que seja preciso trair, matar e usar armas de destruição em massa. (Que seriam os dragões se não alegorias para isso? A cena de cinzas e escombros de que Arya emerge, no penúltimo episódio, remete ao 11 de Setembro.)

O maniqueísmo nunca teve lugar no texto de Martin nem no de Weiss e Benioff. Se o único personagem supostamente puro da trama é aquele conhecido por não saber nada —o bobo alienado comum na dramaturgia de política—, se aqui crianças matam e morrem, por que estranhar o comportamento de Daenerys?

Há lapsos de ritmo, há discrepância na potência das atuações e há sangue demais.

Mas essa série tão esnobada por conter dragões —alguém rejeita Shakespeare por causa de seus fantasmas, ou Stanley Kubrick porque não se cavalga em bombas?— encerra seus 73 episódios com uma muito necessária lição de política.

Game of Thrones - último episódio
Dom (19), às 22h, na HBO; também disponível na HBOGo

 
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