Clarice Falcão deixa humor de lado e fala de depressão em disco novo

Cantora faz show de lançamento do álbum 'Tem Conserto' no domingo (7), em São Paulo

São Paulo

“Ela estava falando tudo isso para ser engraçada”, Clarice Falcão reflete sobre como era encarada pelo público em seus dois primeiros discos. “Monomania” (2013) e “Problema Meu” (2016), em diferentes contextos, revelavam o lado cômico que é mais evidente na carreira da cantora como atriz. Mas, segundo ela, já nessa fase, suas agonias e aflições estavam presentes no trabalho.

“Sempre estiveram lá, mas eram encapadas com a coisa do exagero, da ironia”, analisa a artista. Segundo ela, qualquer sentimento, por mais triste que seja, se exagerado até um nível absurdo pode virar uma piada. “Se você vir as letras do ‘Monomania’, muitas vezes elas tangenciam depressão ou liberdade, mas fica protegido por essa armadura da piada.”

Lançado em junho, “Tem Conserto” –cujo show de lançamento acontece no domingo (7) ao Sesc Pompeia– é uma ruptura na obra musical de Falcão. Imersas em batidas, graves e arranjos eletrônicos, as nove faixas do disco revelam uma artista vulnerável e reflexiva, mas ainda em movimento.

“Até na terapia eu era assim. Podia estar mal, mas fazia uma piada e não dava muita importância. Foi a hora de ‘não, não, Falcão, vamos falar de verdade o que você está sentindo’”, explica. “Quando fiz a primeira [música], pensei que não precisava ser engraçada para comunicar algo de um jeito novo.”

O assunto saúde mental não é algo novo para a cantora, que teve um avô que se suicidou e perdeu uma avó vítima de uma overdose de calmante. “Minha mãe passou por isso muito nova”, recorda.

O momento de entrega emocional mais evidente do disco é “Esvaziou”, que explora o luto e foi composta logo depois que Falcão viu morrer uma pessoa próxima. “Horizontalmente” é uma declaração de apatia, em que ela afirma que não vai sair da cama.

“Vi logo que era um disco sobre mania e depressão”, diz. “É sobre os polos: o máximo de ansiedade a que você chega e também a tristeza, às vezes em uma mesma pessoa, às vezes ao mesmo tempo.”

É como se, em vez de fazer piada com os desastres da própria vida, a protagonista de “Fleabag” —série de comédia da BBC da qual Falcão é fã– entrasse numa bad existencial enquanto dança perdida às 10h da manhã em uma festa techno. Uma cena semelhante é descrita pela cantora em “Só + 6”, na qual ela amanhece na pista enquanto se recusa a ir embora da festa.

Frequentar os eventos e conviver com a cena de música eletrônica contemporânea, inclusive, foi uma das maiores influências recentes de Falcão. A faixa “CDJ”, por exemplo, é um house em que ela se declara a um DJ ao se pôr no lugar do equipamento o manipulado por ele.

“A pista é muito animada, mas ela tem uma tristeza também, especialmente nesse momento, quando o sol nasce e você não quer que acabe. Você já está exausto, não está mais tão bom. É como se fosse uma nostalgia daquela mesma noite, só que mais cedo, quando ainda estava bom”, teoriza.

“Tem Conserto” também foi resultado de um processo de gravação menos ortodoxo. Em vez de juntar uma banda e marcar sessões em estúdio, Clarice Facão trabalhou em casa com o produtor Lucas de Paiva (Mahmundi, Silva). “Peguei quatro cadeiras, botei um edredom por cima e gravei a voz ali embaixo, igual criança.”

Naturalmente, ela esteve mais envolvida nos detalhes da confecção do álbum, mas a principal vantagem do esquema caseiro foi a privacidade. “Não conseguiria escrever as coisas que escrevi por cima das bases se fosse um estúdio com um monte de gente com quem não tenho intimidade”, confessa.

Se privacidade foi um ingrediente fundamental para a criação de “Tem Conserto”, em sua nova empreitada como atriz –a série “Shippados”–, a ausência dela é exatamente o ponto chave.

Brita, a personagem de Falcão, está quase sempre pelada ao lado do namorado, Valdir (Luis Lobianco). É a lembrança de que, apesar da incursão depressiva na música, a cantora está longe de se tornar um poço de tristeza. “O único jeito de voltar para Globo tinha que ser pelada mesmo”, brinca.

Clarice Falcão no Sesc Pompeia  R. Clélia, 93, Água Branca, região oeste, tel. 3871-7700. Dom. (7): 16h. 90 min. Livre. GRÁTIS  

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