Descrição de chapéu Flip

Operação com lancha e guarda-costas faz escolta de Glenn Greenwald na Flip

Repórter da Folha acompanhou o jornalista no barco até local do debate

Patrícia Campos Mello
Paraty (RJ)

Eram 18h46 quando um carro de vidros escuros encostou no cais pesqueiro de Paraty, um local afastado do centro histórico. O jornalista Glenn Greenwald desceu acompanhado de dois seguranças, que o acompanham 24 horas por dia desde que começaram a ser publicadas as reportagens da VazaJato.

Era o início da operação de guerra montada para levá-lo até o barco pirata da Flipei (Feira Literária Pirata das Editoras Independentes), da programação paralela da Flip, onde falaria mais tarde ao lado do ator, escritor e humorista Gregorio Duvivier, do professor Sérgio Amadeu e do jornalista Alceu Castilho.

Só fui informada na última hora sobre o lugar em que deveria aguardar a chegada de Greenwald para acompanhá-lo. No cais, havia apenas pescadores e um homem com equipamento de filmagem.
Indagado se estava esperando por alguém ali no cais, o homem respondeu apenas “sim, alguém”. O clima de sigilo cercava toda a operação.

Greenwald vestiu o salva-vidas e embarcou com seus seguranças, a equipe de filmagem e organizadores da Flipei num barco de fibra de vidro chamado Tempo de Aventura. Eu acompanhei.

Eduardo Anizelli/ Folhapress
Glenn Greenwald no barco rumo à debate na Flip 2019 - Eduardo Anizelli/ Folhapress

Fábio Santos, o piloto do barco, não sabia exatamente quem estava transportando. “Já vi na TV, ele mexeu no celular do pessoal e pegou umas coisas, né?”

Os organizadores da Flipei e os seguranças de Greenwald traçaram uma estratégia para evitar que ele passasse pelo meio do centro histórico de Paraty e enfrentasse confrontos com manifestantes que se opunham à sua presença na cidade. 

Resolveram não transportar Greenwald por terra, porque seria mais fácil fazer sua escolta se ele chegasse de voadeira até onde iria falar. Organizadores iam monitorando a quantidade de participantes nos protestos contra Greenwald. “E aí, quantos coxinhas tem aí?” Chegaram até a infiltrar pessoas em grupos de WhatsApp de direita.

O jornalista americano tem sofrido ameaças constantes, por email e redes sociais, inclusive envolvendo como alvo os dois filhos que ele tem com o deputado David Miranda.

“Minha vida mudou completamente. O que eu mais gosto de fazer no Rio é andar sozinho nas ruas. Não posso mais fazer isso. Tínhamos três câmeras de segurança, tivemos que aumentar para 30. Temos carro blindado e seguranças 24 horas por dia”, ele me disse.

“Não devo nada, então não me intimida essa investigação da Polícia Federal ou o Coaf [sobre suas transações financeiras]. Mas eles estão criando um clima de medo, é uma tentativa de assustar e intimidar jornalistas.”

Greenwald também tem sido hostilizado publicamente. “Outro dia, fui ao Shopping Leblon e uma senhora acompanhada da neta começou a gritar ‘volta pro seu país, vai embora do Brasil’. Mas o meu país é o Brasil, meu marido é brasileiro, meus filhos são brasileiros.” Foram dez minutos no Tempo de Aventura. 

Chegando perto do barco onde aconteceria o debate, Greenwald, os seguranças e um dos organizadores da Flipei e editor da Autonomia Literária, Caue Ameni, podiam ouvir o som muito alto do hino brasileiro e fogos de artifício. 

“Nossa, isso tudo é muito intenso”, disse Greenwald. “Que diferença da última vez em que estive na Flip”. Um dos seguranças de Greenwald, pelo rádio, perguntava: “O hino eu sei que e é contra nós, mas e os fogos, são contra ou a favor?”. Eram contra. O americano fez piada. “O protesto é contra você e o Duvivier, não é contra mim não”, ele me disse.

Chegando ao barco pirata, o jornalista foi ovacionado por uma multidão. Mas o som do protesto vizinho aumentava.

Depois de alguns minutos, a manifestação dos que eram contrários à presença do jornalista americano foi silenciada com a ação da polícia.

“O único momento em que intervenção militar é boa é quando ela é contra quem pede intervenção militar”, brincou Duvivier. 

Mas a trégua durou pouco. Os manifestantes voltaram a tocar versões funk do hino e a gritar “Lula tá preso, babaca”.

Era difícil ouvir o que Greenwald falava. Algumas pessoas desistiram e foram embora, sem conseguir escutar o que ele dizia, mas a maior parte continuou, apesar do frio. 

“Poxa, não tem quase ninguém no protesto deles, mas a caixa de som dos caras é potente. E esses fogos atrapalham”, lamentava um dos organizadores.

Ao final, Greenwald, vestido com uma jaqueta da seleção brasileira que pegou emprestado de seu segurança, embarcou de novo no Tempo de Aventura e desapareceu na escuridão.

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