Descrição de chapéu Flip

Mesa com Zé Celso na Flip tem vinho, chocalho, ciranda com plateia e sarau

Diretor teatral dividiu cena com escritor indígena Ailton Krenak

Thiago Amâncio
PARATY (RJ)

Começou com um chocalho. Depois, abriram um vinho. Teve ciranda. Improvisou-se um sarau. Ergueram uma bandeira Lula Livre. E terminou com um brinde. A mesa que uniu o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa e o escritor Ailton Krenak na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na noite desta sexta (12) mais lembrou um espetáculo do Teatro Oficina.

Antes de falar, o escritor e pensador indígena Ailton Krenak sacou um chocalho de sua bolsa e fez um Teru Andé, ritual de invocação dos espíritos marét típico de sua etnia, os krenak, que vivem à margem do rio Doce (ou Watu, na língua deles), em Minas Gerais.

A fala ocorreu logo após os protestos contra o jornalista Glenn Greenwald, em que apoiadores do presidente Jair Bolsonaro soltaram fogos de artifício para interromper a fala do americano. 

Mathilde Missioneiro/Folhapress
Ailton Krenak na mesa 'Vaza-Barris', da Flip 2019 - Mathilde Missioneiro/Folhapress

“Estava escutando os fogos e pensando, é muita sorte você poder falar de Canudos com essa cenografia toda”, afirmou ele, que foi respondido com aplausos do público. “Não nos assustamos mais com fogos porque sabemos onde a força da vida se manifesta, na nossa possibilidade e potência de recriar a vida, reexistir. E agora estamos vivendo uma experiência de resistir. Uma expansão da nossa subjetividade, que a força bruta acha que pode tolher.”

O indígena sacou na sequência pintou o rosto de Zé Celso com urucum, “pra ele ficar mais chocante”, como presente. “O que o Zé Celso faz da vida dele é um manifesto para suspender o céu e fazer a Terra dançar”, disse.

A partir daí, Zé Celso, vestindo um poncho colorido dos índios mexicanos tarahumara, dirigiu o espetáculo. Em referência ao nome da mesa em que estavam, Vaza-Barris (rio baiano que passa pela região de Canudos), pediu que alguém da plateia lhe trouxesse um vinho, encheu os copos dos palestrantes e devolveu a bebida ao povo.

Zé Celso Martinez com o rosto pintado de urucum em mesa da Flip 2019
Zé Celso Martinez com o rosto pintado de urucum em mesa da Flip 2019 - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Zé Celso criticou Bolsonaro e cantou algumas vezes, pedindo acompanhamento público o acompanhasse. A primeira, louvando o ócio (“ócio, cio, cio, cio”), música do espetáculo “Os Sertões”, do Oficina. Depois, cantou Hamlet (“Tupy or not tupy?”), formando uma grande ciranda com o público —acompanhado da cantora Zélia Duncan .

Quando se acalmou, o diretor resolveu passar o microfone à plateia para que fizessem perguntas. A primeira a pegá-lo subiu ao palco e recitou seis página de Tchekhov —com direito a ter a impostação da voz corrigida por Zé Celso.

O segundo, o cineasta Wilton Nunes, que se definiu como “presidente do movimento dos sem-tela”, leu Euclides da Cunha, disse que Lula não assistiu a seu filme e pediu diretas já.

A mediadora da conversa, Camila Costa, retomou os microfones para dizer que faltavam apenas três minutos para o fim da mesa, e pediu que Ailton e Zé Celso fizessem uma última fala rápida —um haikai, nas palavras dela.

Zé Celso preferiu passar a oportunidade ao público, que entendeu o recado literalmente. “Chega chuva/ Pinga, pinga e pinga/ Cachoeira cheia”, declamou uma mulher.

Teve tempo de subir ao palco uma bandeira Lula Livre, a convite do dramaturgo.

Com o horário estourado, a curadora da Flip, Fernanda Diamant, precisou dizer que teria que deixar a mesa para ir à próxima programação. Camila Mota decidiu fazer um último brinde, mas o público não ouviu —os organizadores já tinham desligado os microfones.

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