Descrição de chapéu Flip

Socióloga e influencer quer democratizar Marx via Instagram

Mediadora da mesa de Glenn Greenwald na Flip critica deputada Tabata Amaral

Marcella Franco
PARATY (RJ)

Nem só de fotografias de uma vida perfeita é feito o Instagram brasileiro. Entre imagens de lugares paradisíacos, corpos sarados e casas ricamente decoradas, despontam também as ideias de uma mulher, socióloga, marxista, feminista e vegana. A goiana Sabrina Fernandes, doutora pela Universidade Carleton, no Canadá e mediadora da mesa com Glenn Greenwald na sexta (12) tem 30 anos, 126 mil seguidores e uma vontade imensa de dialogar.

Seu perfil Tese Onze (@teseonze) teve início há dois anos no YouTube, onde ela ainda publica vídeos semanais para seus 180 mil assinantes. O nome do canal vem da "Tese Onze" de Karl Marx que, Fernandes explica, fala fundamentalmente sobre teoria e prática.

“Muito tempo atrás, Marx escreveu algumas teses que desenvolviam o método dele, de materialismo histórico. Ele não serve só para interpretar a realidade, mas para transformá-la também. Ele não diz que é ruim interpretar, mas a questão principal é transformar”, resume. “Minha análise vem da vontade de transformar a sociedade."

Para Fernandes, todos deveriam conhecer Marx. Ela reconhece, no entanto, que não se trata de uma leitura fácil. “Eu sei que não é todo mundo que consegue. Para mim também foi difícil. Mas é preciso se desafiar, entender e explicar para outras pessoas. Vivemos em um país com desigualdade educacional, então um dos desafios é levar o conhecimento para pessoas que não têm acesso à academia”, avalia.

Fernandes recomenda que os interessados em começar no universo do marxismo via “O Capital” organizem leituras em grupo ou guiadas. Mas, para compreender o pensamento de Marx como um todo, a socióloga sugere aos leitores trabalhos anteriores, como os “Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844”.

“Ali a gente entende um pouco da análise dele do que é comunismo, do que é opressão, do que é alienação. Foi um rascunho, não era intenção publicar, mas são mais acessíveis. E não tem como negligenciar a leitura do ‘Manifesto Comunista’”, complementa.

Para a socióloga, ainda há muita desinformação a respeito dos conceitos fundamentais de Marx. “Ele não fala de você socializar a sua cama, a sua roupa, mas fala de socializar os meios de produção que produzem esses bens, que são mercadoria na sociedade. O problema não é a coisa, é a mercadoria. Porque é no processo da coisa se tornar mercadoria que existe a exploração do trabalhador e o ganho do patrão.”

Socióloga e influencer Sabrina Fernandes, que mediou mesa de Glenn Greenwald na Flip
Socióloga e influencer Sabrina Fernandes, que mediou mesa de Glenn Greenwald na Flip - Luiza Queiroz/Divulgação

Esse tom didático é uma das marcas registradas do Tese Onze. De conceitos feministas à reforma da Previdência, Fernandes destrincha assuntos do momento. Desse modo, atrai um público que ela diz ter “fome” de amadurecimento político. “Eu não entrego tudo mastigado, mas sou provocadora. Tenho um projeto diferente do que se vê nos canais progressistas em geral”, analisa. “Minha base entendeu o jogo político da sociedade."

O linguajar típico da política pode dar a entender que ela vá, em algum momento, concorrer a cargos públicos —até por ser filiada ao PSOL. Mas ela nega. “É preciso entender que nem toda referência política precisa ser um candidato, estar no Parlamento”, rebate.

Fernandes se contenta em ser referência nas redes e, agora, também na literatura teórica, com seu livro “Sintomas Mórbidos - A Encruzilhada da Esquerda” (Autonomia Literária, 387 págs.), no mercado há pouco mais de um mês. Ela relata que, a partir do lançamento, passou a receber cartas e chegou a atravessar maratonas de quatro horas dando autógrafos em eventos.

“Ser referência é assumir responsabilidade. Pode não parecer, mas sou uma pessoa introvertida. Priorizo a privacidade. Mas, na política, a gente tem que ter coragem de dar a cara a tapa. Investi nesse projeto como disseminação de política. Uma ação para além do espaço partidário, que traga pessoas para se organizarem e se aprofundarem”, comenta.

Durante a Flip, na qual não só participou como mediadora da mesa de Greenwald como falou em outra no sábado (13) de manhã, ambas na programação da casa parceira Flipei, Fernandes postou em seu Twitter uma análise a respeito da situação da deputada Tabata Amaral, alvo de críticas depois de votar a favor da reforma da Previdência.

Para a socióloga, a posição da parlamentar “não foi nenhuma surpresa”. “Fiz vídeos apontando isso e muita gente não quis acreditar. Principalmente quem se identifica com a ela e com sua história de vida, de superação. Ela foi identificada como ‘esquerda forte’. Mas eu vejo os interesses por trás das coisas, a proximidade com uma elite empresarial brasileira. Notei certas tendências.”

Fernandes reforça, no entanto, que Tabata não seria a única representante do discurso pós-político no Brasil. “O que fez a deputada ser notável foi sua crítica importante ao ministro. Muita gente já quis colocá-la em um pedestal, muita gente caiu na armadilha. O perigo é que isso traz despolitização dentro da esquerda e esvazia os significados radicais. Mas há que se permitir que as pessoas façam autocrítica, então, caso ela queira largar a pós-política e se radicalizar, ela vai ser bem-vinda."

Ainda em relação a Tabata, Fernandes aponta uma tendência machista nas críticas que a deputada vem recebendo. “Não são críticas, são ataques, e todo ataque machista deve ser repudiado”, explica. “E as defesas machistas também precisam ser criticadas, porque costumam ser defesas que diminuem a capacidade da mulher na política. O uso de significantes como ‘jovem’ e ‘mocinha’ e de termos ‘afetivos’ deve ser refutado. Eu também recebo muitos desses”, revela.

Loira, com feições delicadas, Fernandes diz saber que se encaixa “nos padrões hegemônicos da sociedade”, e que um de seus papéis como feminista é “destruir esses padrões”. Para ela, nenhum debate político deve passar pela reafirmação desses padrões.

“Não tenho como mudar minha aparência e não pretendo deixar, por exemplo, de deixar de gostar de maquiagem. Se eu me podar, vou sucumbir ao que a sociedade coloca como feminista estereotipada. Não deve haver nenhum estereótipo além daquele da mulher que luta pela emancipação dela e de outras mulheres”, explica.

Entre as perguntas que Fernandes mais recebe está aquela sobre o futuro da esquerda no Brasil e quais seriam as soluções para sua fragmentação. “Unidade de esquerda não é coalizão eleitoral. Quando a gente chega num ponto em que uma coalizão tem tanta relevância, a gente não fez o trabalho de base. Em vez de pensar se vamos ter alternativa viável em 2022, precisamos construir a viabilidade. Política não se resume a quem é o presidente do Brasil."

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