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'Vivemos momento de retrocesso', diz antropóloga sobre direitos indígenas

Mesa Bendegó discutiu obra 'Paletó e eu - Memórias de meu pai indígena' de Aparecida Vilaça

Patrícia Campos Mello
PARATY (RJ)

Os indígenas viraram alvo novamente. Esse foi o alerta da antropóloga Aparecida Vilaça na Flip. “Vivemos um momento de retrocesso absoluto, estamos voltando aos anos 50 e 60 (época em que brancos promoveram massacres sistemáticos de indígenas)”, disse Aparecida durante a mesa Bendegó, que foi moderada pelo jornalista Paulo Roberto Pires, editor da revista Serrote.

Aparecida é autora de “Paletó e eu - Memórias de meu pai indígena”, um relato sobre a relação de pai e filha da antropóloga com o indígena Paletó, e com os waris, com quem conviveu por longos períodos em aldeias em Rondônia, desde 1986.

A doutora em antropologia social e professora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Aparecida Vilaça, durante a mesa 2 - Bendegó, durante a Flip 2019, em Paraty
A doutora em antropologia social e professora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Aparecida Vilaça, durante a mesa 2 - Bendegó, durante a Flip 2019, em Paraty - Eduardo Anizelli/ Folhapress

Segundo Aparecida, que é professora de antropologia no Museu Nacional, o simples fato de membros do governo manifestarem desprezo pela terra indígena e pelos direitos adquiridos dos indígenas está funcionando como um sinal verde para invasões de reservas.

No início do ano, o governo Bolsonaro transferiu a atribuição de demarcação de terras indígenas para o ministério da Agricultura, mas decisão foi barrada pelo Congresso, reiterada por Bolsonaro, e aí derrubada no STF.

Além disso, integrantes do governo vêm afirmando que os índios querem fazer o que quiserem com suas terras, inclusive vender ou plantar soja.

“Essa coisa de dizer que eles querem agricultura e mineração, é tudo completamente falso”, disse a antropóloga.

Ela afirmou que vários waris estão ligando para ela e relatando invasões: “Aparecida, estão entrando aqui (na reserva homologada) dizendo que não vale mais nada”. “A situação dos povos indígenas em geral é drástica.”

Segundo Aparecida, é importante que as pessoas se deem conta de que a luta pelos povos indígenas não só dos antropólogos e pesquisadores. 

“Se não tivermos diversidade a gente morre, um mundo feito só de gente igual é chato e pobre; nós precisamos é aprender com eles, e não ter essa ideia que vamos civilizá-los. Eles é que podem nos civilizar –podem nos ensinar a ser autossuficientes em produção de comida, na preservação da família. Se a gente tira a terra dos índios e os evangeliza, aí acabou”, disse ela, que foi muito aplaudida.

Ela descreveu Paletó como “um grande parceiro intelectual na minha descoberta da vida dos waris e na minha redescoberta da vida na cidade: e me questionou sobre coisas do meu mundo em que eu jamais tinha pensado.”

 

Aparecida lembrou os massacres de índios dos anos 40, 50 e 60, e como a primeira mulher de Paletó foi assassinada junto com a filha pequena, metralhada na vagina –dois terços da população wari foi dizimada.

“O medo deles é que isso volte a acontecer, e está acontecendo sub-repticiamente, as pessoas estão armadas.”

A antropóloga também criticou o descaso do governo com o Museu Nacional, que foi destruído em um incêndio no ano passado. “Somos pessoas desabrigadas, tentando reconstruir nossa biblioteca (de antropologia), que era a maior da América Latina, e estamos fazendo crowdfunding porque não conseguimos verba pública”, disse.

Segundo a autora, o incêndio foi fruto de anos de negligência do governo. “Há décadas os dirigentes do museu pediam verbas para reformas (que poderiam ter impedido o incêndio), e as verbas nunca chegaram. A gente jamais vai conseguir repor as preciosidades que estavam lá dentro.”

Aparecida foi aplaudida diversas vezes durante a mesa que durou 45 minutos –estratégia de fazer algumas mesas mais curtas do que em Flips passadas.

O nome da mesa, Bendegó, é uma referência à cidade da região de Canudos, onde se passa “Os sertões”, obra do autor homenageado este ano, Euclides da Cunha.

Mas Bendegó também é o nome do meteorito de 5 toneladas que foi encontrado na região no século 18. O meteorito fazia parte do acervo do Museu Nacional desde o século 19 e podia ser visto logo na entrada.
Sobreviveu ao incêndio, a contrário dos 27 mil volumes da biblioteca de antropologia. 

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