Descrição de chapéu Flip Livros

Crítica defende leitura de 'Os Sertões' para entender situação dos pobres no país

Na abertura da Flip, Walnice Nogueira Galvão compara violência em Canudos a mazelas da sociedade brasileira atual

Maurício Meireles Naief Haddad
PARATY (RJ)

“‘Os Sertões’ tem que ser lido todos os dias para se entender o que está acontecendo com os pobres do país”, disse a crítica literária Walnice Nogueira Galvão na conferência de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na noite desta quarta-feira (10). 

Walnice Nogueira Galvão, durante a Sessão de Abertura - Canudos, na Flip 2019, em Paraty - Eduardo Anizelli/ Folhapress

A ensaísta defendeu que, “enquanto o processo de modernização capitalista não acabar e se passar a uma nova fase histórica”, o livro continua relevante para pensar o país.

A professora emérita da Universidade de São Paulo destacou que ler o livro serve para pensar na morte de jovens negros nas periferias do Brasil, no desastre de Brumadinho, em Minas Gerais, ou na militarização do país, entre outros assuntos.

A crítica literária terminou sua fala com uma exaltação da militância dos sem-terra, traçando um paralelo com os moradores de Canudos, liderados por Antônio Conselheiro no fim do século 19. Mas ela vê os movimentos de sem-terras como algo muito à frente do que Euclides da Cunha, o autor homenageado desta edição da Flip, relatou em seu livro “Os Sertões”.

Enquanto os moradores de Canudos, segundo ela, se “voltaram para dentro”, indo se esconder nos sertões, os sem-terra invadem espaços dos outros e do poder. “Eles são ativos, enquanto os canudenses eram passivos”, afirmou a crítica.

Ela lembrou ainda a inviabilidade de Canudos como projeto político. “Não ia chegar longe sem incomodar o aparelho repressivo, como de fato não chegou. Mas de uma maneira ou outra conseguiram”, disse Nogueira Galvão, destacando elogiosamente a dimensão utópica do povoado.

A região onde se instalaram, lembrou a pesquisadora, era dominada pela igreja, por proprietários de terra e pela polícia —e a postura dos canudenses era um desafio a essas autoridades constituídas.

“Eles se subtraíram por um tempo ao regime de trabalho e propriedade. Era uma utopia, mas era notável. Isso explica a resistência aos ataques do Exército.  Eles tinham pelo que morrer. Era uma criação deles, coletiva.”​

A conferência foi pautada pelo senso de ironia da pesquisadora, em tom de conversa com o público, que acompanhava atento —apesar de o assunto em geral ser visto como árido.

A cobertura da Guerra de Canudos foi uma das maiores fraudes da história do Brasil, disse Nogueira Galvão, que pesquisou as notícias da época para o livro “No Calor da Hora.“Talvez tenha sido a primeira e vocês sabem que não foi a última”, disse ela, fazendo ainda críticas ao Exército e à imprensa.

“Escreveram que tinham visto treinadores militares estrangeiros no sertão. Tudo mentira, tudo fraude”, afirmou. O governo federal e o Exército acusavam Antonio Conselheiro e seus seguidores de integrar uma conspiração monarquista internacional, hipótese que Euclides demonstrou em “Os Sertões” que não era verdadeira.

“Quando se soube o que tinha acontecido em Canudos [o massacre dos sertanejos], o Brasil inteiro se sentiu culpadíssimo. A partir de um certo momento, começam a chamar os sertanejos de brasileiros [antes eram apenas jagunços]. Começam a tratar a guerra como fratricida”, afirmou a professora.

Antes da conferência, a curadora da Flip, Fernanda Diamant, agradeceu a suas filhas e dedicou a abertura do evento a Otavio Frias Filho —ex-diretor de Redação da Folha morto em agosto do ano passado, de quem é viúva—, a João Gilberto e “ao Brasil que ele cantou”.

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