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Cinema

Comédia de Leandro Hassum perde chance de aprofundar tema rico

Em 'O Amor Dá Trabalho", ator interpreta burocrata que, após a morte, vira cupido

O Amor Dá Trabalho

  • Quando Estreia nesta quinta (29)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Leandro Hassum, Flávia Alessandra, Bruno Garcia
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Ale McHaddo

Ele bate o ponto numa repartição pública apinhada de serviço. Mas chega atrasado, não atende o telefone e nada faz com os pedidos que recebe, inclusive o de um velhinho que, apesar comprovar setenta anos de trabalho, não recebe aposentadoria. Leandro Hassum exagera sem o menor complexo ao dar corpo ao personagem, Anselmo, protagonista de "O Amor Dá Trabalho".

De tão abarrotado e mal organizado, o arquivo de Anselmo cai sobre sua cabeça e ele morre. Torna-se, então, vítima da burocracia além-vida, que decidirá se irá para o céu ou para o inferno. Será uma espécie de anjo, e a salvação de sua alma dependerá do sucesso em realizar uma missão complicada: reatar o romance entre Elisângela (Flávia Alessandra), dona de uma rede de food-trucks veganos, e Paulo Sérgio (Bruno Garcia), que a abandonou no altar anos antes.

O argumento tem rendimento cômico evidente, mas o roteiro perde a oportunidade de aprofundar o absurdo da burocracia, abusando, em vez disso, de piadas fáceis —e gastas. Encadeiam-se, assim, os alvos mais manjados do humor masculino, branco, hétero e do Sudeste: a loira burra, a mulher de 37 anos que ficou velha demais para casar, o veganismo hippie, a preferência feminina por homens ricos, o sotaque nordestino, etc.

Ritmada pelo tempo que Anselmo recebe para cumprir sua missão —uma semana—, a narrativa se constrói como uma corrida frenética e eletrizante, que conduz com bom domínio técnico a atenção do espectador. Cada truque não permitido usado pelo anjo pouco ortodoxo é punido com uma redução de seu prazo.

É verdade que o roteiro comporta reviravoltas importantes. Abre-se espaço, assim, para a solidariedade entre mulheres, que podem conquistar o amor depois dos 37. Anselmo é obrigado a abandonar alguns de seus preconceitos. E uma hilária reunião de deuses e deusas de diferentes religiões alinha a comédia a um ecumenismo que poderia ser politicamente correto

É notória, também, a expressividade corporal e facial de Hassum. Suas caretas, seus trejeitos e a entrega de seu corpo ao personagem lembram às vezes Jerry Lewis. E dialogam, evidentemente, com a tradição da comédia televisiva brasileira, estando mais para "A Escolinha do Professor Raimundo" que para "Os Trapalhões". Após os créditos, o filme exibe os descartes da montagem, mostrando o quanto os colegas de elenco riem com ele no set.

Resta, apesar disso, um incômodo retro-gosto. Ligado, provavelmente, à constatação de que os preconceitos que embasam piadas das mais corriqueiras não apenas deixaram de funcionar, mas também se tornaram de difícil digestão.

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