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Coringa de Joaquin Phoenix traz palhaço sofrido que se move como um bailarino

Ator emagreceu para viver o vilão que, nesta versão, tem ataques de risos incontroláveis

Los Angeles

Jack Nicholson garantiu um dos maiores salários da história de Hollywood com ele. Heath Ledger ganhou um Oscar póstumo com ele. Jared Leto entrou nas franquias bilionárias dos quadrinhos com ele. O personagem Coringa, da DC Comics, rival da Marvel, parece ser uma atração irresistível para os astros do cinema. 

Não foi diferente para Joaquin Phoenix, que assume o papel do antagonista de Batman no violento e sombrio “Coringa”, drama sobre desigualdade social e saúde mental que narra a origem do personagem. “Só topei porque não tinha certeza que conseguiria fazer. O medo do fracasso me motivou”, conta Phoenix. 

No longa, que estreia em outubro no Brasil e tem première mundial no Festival de Veneza agora, o ator interpreta Arthur Fleck, um sofrido palhaço de aluguel durante o dia e aspirante a comediante à noite.

A trama escrita por Todd Phillips e Scott Silver se passa numa Gotham em crise econômica entre as décadas de 1970 e 1980. Fleck sofre de um problema mental que gera ataques de risos incontroláveis.

“A risada foi o ponto de início para mim, porque Todd a descreveu como dolorosa. Achei isso interessante e surpreendente. Vi vídeos de pessoas com esses ataques e nunca imaginei que o Coringa poderia ser assim”, diz o ator. 

 

“Precisava de alguém destemido para interpretar o Coringa. E Joaquin Phoenix é um ator que não mede esforços para viver personagens”, conta Phillips. “Escrevemos o papel para ele. Só para ele.” 

Criado em 1940 por Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson, o Coringa já teve origens diferentes nos quadrinhos, no cinema e na TV. O novo filme não segue nenhum arco das HQs, mas alude a longas como “Um Estranho no Ninho”, de 1975, “Taxi Driver”, de 1976, e “O Rei da Comédia”, 1982 —Robert De Niro até faz uma ponta como um apresentador de talk show. 

É um estudo de personagem sem explosões ou cenas de ação espetaculares. “É uma tragédia”, resume o cineasta. “Quando levei a ideia para a Warner, eles acharam uma grande loucura. Trouxe o roteiro um ano depois e quase me expulsaram do estúdio.” 

Phillips nunca foi um fã de gibis. Phoenix segue a mesma linha. “Para ser sincero, não conhecia muita coisa sobre o Coringa. Lembro de ler ‘Arkham Asylum’. Mas assisti aos filmes de Tim Burton e Chris Nolan”, revela o ator, que viu “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de 2008, sem querer. 

“Fiquei curioso quando apareceu na minha TV. Heath era um ator brilhante e um sujeito sensacional. Lembro como a interpretação deixou uma marca, mas queria ter a liberdade de criar algo original.”

Mesmo com temas adultos e classificação indicativa para maiores de idade, “Coringa” não se desvia do universo do Batman, ainda que não tenha ligação com qualquer filme anterior. Thomas Wayne, vivido por Brett Cullen, que será o pai do herói no futuro, concorre a prefeito de Gotham e tem uma ligação surpreendente com Arthur Fleck. 

“Temos uns dois dedos nos quadrinhos, mas fizemos nossa história. Não quero que as pessoas achem que é ‘A Piada Mortal’”, afirma Phillips. 

Tanto que Phoenix apresentou ideias diferentes sobre o visual do Palhaço do Crime. “Li que os portadores dessa síndrome emagrecem ou engordam dramaticamente. Falei para Todd que gostaria de engordar para o papel”, lembra Phoenix.

Phillips, para passar a ideia de um homem que vive em péssimas condições financeiras, queria um aspecto de má nutrição e cortou a ideia do astro. “Só queria comer hambúrguer e batatas fritas, mas ele me explicou o conceito e entendi que era um caminho mais interessante.” 

O Coringa, então, virou uma criatura magra e maleável, como um dançarino performático. “A dança é um grande componente da composição. Acho que há uma arrogância na maneira como ele se move com o queixo empinado”, diz Phoenix, que transita entre virar um assassino e ser um símbolo dos oprimidos, dançando no meio do caos de Gotham. “Foi quando percebi ‘porra, esse é o Coringa’.”

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