Descrição de chapéu
Jerônimo Teixeira

É contraditório que 'Bacurau' se contraponha a Bolsonaro com violência

A brutalidade é a vocação de Bacurau; será também a do Brasil?

Jerônimo Teixeira

Nos créditos finais de “Bacurau”, aparece uma mensagem breve em defesa do cinema brasileiro, que ajuda a constituir a identidade nacional e, de quebra, gera empregos. É uma óbvia resposta ao presidente que fala em impor filtros (eufemismo para censura) a produções apoiadas pela Ancine.

É, sim, uma oportuna contestação ao filistinismo agressivo de Jair Bolsonaro. Só é um tanto contraditório que a esmaecida miragem romântica da “identidade nacional” seja invocada em oposição a um governo de retórica patrioteira —ainda mais quando, em “Bacurau”, essa identidade exige uma orgia de violência armada para se expressar. 

A comunidade fictícia que dá título ao filme roteirizado e dirigido pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles aparece a princípio como uma vila pobre mas altaneira, de gente solidária na hostilidade a políticos demagogos. Essa comunidade seria, segundo definiu Dornelles num debate, uma “representação microscópica do Brasil”. 

A história se passa num futuro próximo, mas a distopia não dá a nota dominante. Se quiser evitar spoilers, aliás, é melhor parar a leitura por aqui.

O modelo declarado dos diretores é o western em que a pequena comunidade se vê ameaçada por bandoleiros —que aqui são americanos disputando, sob comando de um alemão sorumbático (Udo Krier), um estranho jogo no qual se ganha pontos matando os habitantes locais. 

Os heróis mais destacados da vila raramente se põem em risco no combate aos vilões, o que esvazia a emoção barata própria dos filmes de gênero.

Os realizadores insistem em que esta não é um história de revanche, mas de resistência. Frente ao opressor estrangeiro, a comunidade, até então pacífica, se defende com os parcos meios de que dispõe. 

No entanto, depois da segunda ou terceira decapitação comandada pelo feroz Lunga (Silveiro Pereira), misto de cangaceiro e líder de facção muito admirado em Bacurau, a distinção entre vingança e resistência começa a parecer um tanto abstrata. 

Sonia Braga, força propulsora de “Aquarius”, filme anterior de Mendonça Filho, reaparece como a médica Domingas. É um papel forte, que no entanto se dilui num enredo em que a vila é um personagem autônomo. Estão ausentes aqui as cisões e tensões entre a cidade e seus defensores que vemos em clássicos do western como “Matar ou Morrer” e “O Homem que Matou o Facínora”.

A comunidade de Bacurau é monolítica na sua implacável justiça popular, que não hesita em passar sentenças de tortura —lançar um homem seminu no meio dos espinheiros da caatinga, por exemplo. 

Referências esparsas, mas significativas à história do cangaço, sugerem que o vilarejo não foi subitamente convertido à violência pelo invasor americano. Ele só teria reencontrado uma vocação atávica enterrada na alma do lugar, como as armas ocultadas sob a rua de terra.

O roteiro afinal desmente os roteiristas —a resistência que define a vila precisa  derramar sangue para encontrar sua plenitude. A brutalidade é a vocação de Bacurau —a sua real identidade. Será também a do Brasil?

Jerônimo Teixeira é escritor e jornalista   

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