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Livro é reflexão de uma grande mulher sobre como o amor cura

'Mamãe & Eu & Mamãe' é sétima e última incursão de Maya Angelou pelo gênero da autobiografia

JULIANA DE ALBUQUERQUE
 

Mamãe & Eu & Mamãe

  • Preço R$ 37,90 (176 págs.)
  • Autor Maya Angelou (Tradução de Ana Carolina Mesquita)
  • Editora Rosa dos Tempos

Recém-lançado no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos, o livro "Mamãe & Eu & Mamãe" da escritora americana Maya Angelou é sua sétima e última incursão pelo gênero da autobiografia. 

A primeira delas, "Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola", originalmente publicada no final da década de 1960, tornou-se célebre ao descrever, em prosa clara e direta, todos os riscos e desafios encarados por ela durante a infância em companhia do irmão na casa da avó paterna no Arkansas. 

Desde o estupro que sofrera na infância durante uma visita à casa da mãe em Saint Louis, o que lhe fez passar três anos sem falar. Bem como das várias ocasiões em que ela e a avó precisaram proteger o irmão das ondas de violência racial no interior dos Estados Unidos. 

Nada, em nenhum momento, parece ter feito com que a autora perdesse o próprio rumo. Uma façanha que Maya Angelou atribui ao constante apoio que recebera da família para superar o trauma de infância e todos os outros desafios subseqüentes, como a gravidez inesperada aos dezesseis anos e o duro começo da sua vida profissional. 

“Como eu, nascida negra num país branco, (...) consegui tornar-me Maya Angelou? Eu sabia que me tornara a mulher que me tornei por causa da avó que eu amava e da mãe que eu vim a adorar.”

Em "Mamãe & Eu & Mamãe", Angelou retorna aos temas e eventos daquele primeiro livro sem que isto, no entanto, se torne cansativo para o leitor já familiarizado com a sua história. Dado que, apesar dos fatos permanecerem os mesmos, desta vez a narrativa se desenrola na medida em que a autora reflete sobre o estreitamento, durante a sua adolescência, do laço afetivo com a sua mãe —frágil ao primeiro contato, porém sempre intenso, caloroso e solidário ao longo dos anos.

Um dos pontos positivos desse livro está associado à ressignificação da figura materna por parte da autora. Ora, ao invés da mulher submissa que tenta impor as próprias frustrações à filha, Vivian Baxter ensina a Maya Angelou a superar inevitáveis decepções da vida e a usufruir da própria liberdade.

“Ela estava ao meu lado, oferecendo apoio. Este é o papel de uma mãe e, naquela visita, eu de fato enxerguei com clareza, e pela primeira vez, por que uma mãe é realmente importante. Não é apenas porque ela alimenta, ama, afaga e até superprotege um filho, mas porque, de uma maneira interessante, e talvez misteriosa e sobrenatural, [ela] preenche as lacunas. Ela se posiciona entre o desconhecido e o conhecido.”

Do lançamento original de "Mamãe & Eu & Mamãe" em 2013, destaco o comentário da escritora britânica Bernardine Evaristo ao acusar Maya Angelou de inconsistência e revisionismo. Segundo à crítica, Angelou teria alterado descrições de eventos relatados em "Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola". Da mesma forma, a caracterização materna não se encaixaria com o perfil da personagem em suas narrativas anteriores. 

Esses detalhes, provavelmente, não passarão despercebidos para o leitor de Maya Angelou. No entanto, vale ressaltar que nada disso macula os esforços da escritora em prestar última homenagem a sua mãe, cuja postura mediadora muito provavelmente influenciara as próprias atitudes da autora: célebre por tornar-se mentora de uma geração de formidáveis mulheres negras —ao exemplo da ex-primeira-dama Michelle Obama. 

Por outro aspecto, a análise de Bernardine Evaristo cai no vazio ao se considerar que a imagem de uma mesma pessoa apresenta diversas nuances ao longo da vida a depender das circunstâncias, embora prevaleça a característica essencial.

Desta forma, há de se considerar que a obra de Angelou é mais do que um exercício autobiográfico. "Mamãe & Eu & Mamãe" é uma reflexão de uma grande mulher sobre “como o amor cura e ajuda a escalar alturas impossíveis e ergue-se de profundezas imensuráveis”.

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