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Cinema

Longa mostra Bahia mística onde o cotidiano encontra o fantástico

'Abaixo a Gravidade' é dirigido por Edgard Navarro, rebento dos anos 1960 que deixou o melhor de si para a maturidade

Abaixo a Gravidade

  • Classificação 16 anos
  • Elenco Everaldo Pontes, Rita Carelli, Bertrand Duarte
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Edgar Navarro

Edgard Navarro é, como Luiz Rosenberg Fo., um desses rebentos dos anos 1960 que deixou o melhor de si para a maturidade. Passados os arroubos de iconoclastia da rebelde juventude, é como se Navarro se entregasse a uma introspecção mais suave, embora nunca conformista.

Seu acerto de contas com a ditadura veio em forma de fábula, de história narrada na tradição oral. Foi “O Homem que Não Dormia”.

“Abaixo a Gravidade” é trabalho de outra ordem. É da Bahia que se trata, aparentemente. E a Bahia é o território onde vigora o misticismo afro-brasileiro de onde vêm religiões que a tradição cristã ortodoxa tem na conta de primitiva. Nesse tipo de misticismo, os deuses não estão distantes dos homens, mas entre nós. Cada entidade representa aspectos de nossa existência terrena, como que a replica e orienta.

Como na religião grega, me explicou certa vez o músico Dante Pignatari. Um belo tabefe no racionalismo ocidental (que me guia, admito). É preciso passar por aí para entender um pouco da Bahia —onde essas religiões são dominantes e presentes no cotidiano— e desfrutar do novo filme de Edgard Navarro.

Um pouco da história? Ok. O velho Bené (Everaldo Pontes) vive numa pequena cidade do interior, onde funciona como curandeiro e amparo psíquico para os males da vizinhança. Lá ele recebe a jovem e bela Letícia (Rita Carelli), grávida. Depois que ela tem o filho, ele decide acompanhá-la a Salvador. Está de certa forma apaixonado, mas se desilude ao notar que o lance dela é outro.

Cena do filme "Abaixo a Gravidade"
Cena do filme "Abaixo a Gravidade" - Divulgação

Bené retoma então sua vocação de andarilho, o que implica uma série de encontros ou reencontros. E também desditas, como a descoberta de seus graves problemas de saúde. Isso não o impede de entrar no mundo fantástico de Salvador, onde até os santos católicos parecem estar perto das pessoas.

Nesse momento é que entra em cena um homem rico e infeliz, que recebe de seu psicanalista o nome de Myself (Bertrand Duarte). São personagens de certa forma opostos: um é rico, outro é pobre, um vive no mundo moderno, o outro no tradicional. Myself se preocupa consigo, enquanto Bené é voltado aos outros.

No entanto, há coisas que os aproximam: o câncer na próstata, por exemplo. A solidão de Myself, com a mulher que não liga para ele, e a falta de sentido de Bené, desde que Letícia não está nem aí para ele.

Fiquemos por aqui, em termos de história, porque ela é a base de um roteiro que caminha para outros territórios. A gravidade de que fala o filme pode ser interpretada literalmente (a hipótese de haver uma falha no sistema de gravidade em Salvador), mas também a gravidade, a seriedade, o respeito à lógica.

Se Exu faz o certo virar errado e o Mal virar Bem, então é tudo é possível. A visão mística, o crack, o LSD, o que for, transtorna a percepção. Ou a torna lúcida, quem sabe. E é esse território que “Abaixo a Gravidade” entrará com a sem-cerimônia de quem nos explica um modo de ser, o baiano, em que deuses, visões, vilania, viagens —tudo, enfim, parece possível. O mundo cotidiano e o fantástico se encontram, convivem, ora se distanciam. Há loucos e anjos, lúcidos e perdidos. Não sabemos direito quem é quem, até que, a gravidade por um instante permita que objetos, santos, estátuas e pessoas deixem o solo, viagem, percorram outras dimensões. Onde isso poderia acontecer? Só na Bahia, onde a magia e o trivial não mais se opõem, e sim se complementam.

As belíssimas imagens da Bahia (interior e capital), as interpretações (de Everaldo Pontes), a fluência e mesmo as referências ora veladas ora ostensivas a outros filmes, fazem deste outro momento marcante deste tão especial cinema brasileiro contemporâneo.

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