'Não preciso ser folclórica', diz Virgínia Rodrigues sobre ser cantora negra

Em 'Cada Voz É uma Mulher', ela faz parceria com artistas como Mayra Andrade e Luedji Luna

Claudio Leal
Salvador

O pessoal grita demais. A cantora baiana Virgínia Rodrigues, 55, fecha os olhos para suportar o barulho da mesa vizinha, numa sorveteria de Salvador. Diva da canção brasileira, ela vive como uma utopia musical ameaçada pelo som ambiente. Uma vez mais, pede silêncio. 

Virgínia lança este mês seu sexto álbum, “Cada Voz É Uma Mulher” (Natura Musical), aberto a compositoras do mundo lusófono, como a cabo-verdiana Mayra Andrade, a moçambicana Lenna Bahule, a portuguesa Sara Tavares, a angolana Aline Frazão e as brasileiras Luedji Luna, Iara Rennó e Alzira E. 

“Confesso que tive um pouco de dificuldade de gravar mulheres. Primeiro, porque sempre viajei na seara masculina. A gente é machista mesmo sem querer. É o hábito de buscar o mais cômodo”, reconhece a cantora.

“O disco tem várias camadas de vozes femininas. A voz da autoria, a voz lírica, a voz melódica. Todas essas vozes confluem para a voz de Virgínia, que vai difundi-las”, afirma o músico Tiganá Santana, seu diretor artístico desde o álbum “Mama Kalunga” (2015).

Criada no subúrbio de Sete de Abril, em Salvador, a ex-manicure comprou o primeiro disco perto da barraca da mãe, na Feira de São Joaquim. Sem vitrola em casa, pagou por um LP da americana Aretha Franklin e treinou a pronúncia daquele nome esquisito.

Uma década se passa, ela vai à Inglaterra com o Bando de Teatro Olodum e compra seu segundo disco de Aretha, em condições de ouvi-lo no quarto.

Seus três primeiros discos  —“Sol Negro” (1997), “Nós” (2000) e “Mares Profundos” (2004)— contaram com a direção artística de Caetano Veloso. O canto de meio-soprano ondulava com os ventos baianos e portava saudáveis melancolias. Percorreu a partir de então 26 países e conquistou o presidente americano Bill Clinton, num jantar no Palácio da Alvorada. 

“Ele e Fernando Henrique já tinham tomado todas. Os dois estavam com a mão para cima. Bill Clinton estava da cor de uma maçã. Na hora de ‘Adeus, Batucada’, os dois subiram no palco”, lembra. Até hoje, FHC leva seus discos para Clinton.

Depois de “Recomeço”, gravado em 2008 com o pianista Cristovão Bastos, a cantora passou sete anos afastada de estúdios. Nessa altura, a filha de Ogum descobriu Tiganá Santana, o filho de Oxóssi que a levaria para o terreiro Tumbenci, de mãe Zulmira. “Na Bahia, só saio para ouvir Lazzo e Tiganá. Ô, meu Deus, preciso me controlar!”, gargalha Virgínia.

A admiração mútua originou o disco “Mama Kalunga”, outro recomeço. Tiganá comenta que as “cantoras negras têm que o tempo inteiro batalhar para se manter, sempre contra tudo e contra todos”. Ele cita as trajetórias de Elza Soares, Elizeth Cardoso e Áurea Martins. 

A simbiose de gerações ganha um momento elevado com a gravação de “Vedete da Favela”, samba pouco conhecido da escritora Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”.

Duas mulheres periféricas e internacionais se fundem: “Conhece a Maria Rosa? Ela pensa que é a tal/ Ficou muito vaidosa, saiu seu retrato no jornal (…) Salve ela/ Salve ela/ Salve ela/ A vedete da favela”. 

“Esse projeto é de jovens, mas não resisti e botei Dona Ivone Lara”, conta Virgínia. “Nasci para sonhar e cantar” (Dona Ivone/ Délcio Carvalho) sairá como faixa bônus nas plataformas digitais.

“Cada Voz É uma Mulher” tem um repertório conciso de nove músicas. Os arranjos favorecem o desejo de sondar a sensibilidade feminina e consolidam uma discografia elegante. A clarinetista Joana Queiroz a acompanha em “Ter Peito e Espaço” (Sara Tavares/ João Pires/ Edu Mundo).

Em “Ave Leve” —um oriki de Oxum, transcriação do poeta Antonio Risério musicada por Iara Rennó— o violão de Leonardo Mendes e o baixo de João Taubkin seguem com presteza os voos vocais de Virgínia: “Ave leve eleva-me…”. Mendes divide a produção musical com Tiganá, que deu o projeto de presente para a amiga.

“Nesse disco, procurei enfeitar menos. Há compositoras que eu conhecia, mas não ouvia, como Sara Tavares, Aline Frazão. Conheci Luedji Luna quando Tiganá foi cantar no show dela. Fiquei apaixonada”, ela diz.

Virgínia camufla o bom humor em muxoxos, viradas de olhos e frases intensas. A sinceridade radical vale para a gastronomia. No meio da conversa, pede à garçonete: “Você me dá um bolo de tapioca? Se estiver ruim, vou sair daqui falando. Eu tenho uma língua que trabalha, minha filha”.

Retomando o papo, Virgínia reflete sobre as tarefas políticas de uma artista negra: “Há várias formas de ser militante. Para dar orgulho ao meu povo, não preciso ser folclórica. Dar orgulho ao seu povo é fazer coisa boa”. 

O hiato de nove anos sem shows, na Bahia, motivam uma suspeita: “Os contratantes daqui não devem ir com a minha cara. Aqui as pessoas só querem que eu cante de graça. Ultimamente eu estou com uma boca de não”.

O bolo de tapioca veio, mas... Hum. “Tem recheio? Isso acaba com o bolo. Só tem gosto de baunilha. Isso é coco industrializado. Manteiga, que é bom, não tem”, lamenta Virgínia, de volta ao sorriso: “Tem coisa que você só tem na Bahia. Como comer um bolo de tapioca que preste. Não esse aí”.

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