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'Orange Is the New Black' recusa a norma de que mulher é afetiva, diz autora

Piper Kerman, cujo livro inspirou série da Netflix, agora dá aula para detentas em penitenciárias

Alexis Sokolski
The New York Times

Em 2004, Piper Kernan, que se admitiu culpada por delitos de lavagem de dinheiro, começou a cumprir sentença em uma penitenciária federal.

Treze meses mais tarde, ela saiu da prisão. Escreveu suas memórias, "Orange Is the New Black", e o livro, adaptado pela produtora e roteirista Jenji Kohan, se tornou um dos primeiros grandes sucessos da era do streaming.

Piper Kerman se tornou Piper Chapman (Taylor Schilling), uma presidiária branca e de origem privilegiada cuja história serviu para capturar a atenção dos espectadores por tempo suficiente para permitir a apresentação de dezenas de personagens que não compartilham de suas vantagens brancas e de classe média.

Na sétima e última temporada da série, Piper Chapman consegue liberdade condicional. Mas Kerman está de volta à prisão, voluntariamente. Em 2015, ela e o marido, o escritor Larry Smith, e o filho pequeno do casal se mudaram para o estado de Ohio, onde ela leciona não ficção narrativa em duas penitenciárias.

Em julho, um dia depois de depor a um subcomitê da Câmara dos Deputados americana sobre as experiências de mulheres e meninas americanas no sistema de Justiça criminal, ela falou sobre a temporada final da série —o sexo, a tragédia, as galinhas— e o fundo criado pela produção para promover a reforma da justiça criminal e apoiar ex-presidiárias.

Alguns spoilers leves estarão presentes. 

Com que frequência você assistia às filmagens, na última temporada?

Desde que estou vivendo em Ohio, visito menos o estúdio, ainda que tentasse ir o maior número de vezes, porque gosto de torcer pelos outros. O grosso de minha contribuição sempre esteve em responder perguntas dos roteiristas, para ajudá-los a tornar a série mais realista no contexto de uma prisão.

O que você discutiu no Congresso?

Foi uma audiência diante do subcomitê judiciário da Câmara sobre crime, terrorismo e... sempre esqueço a terceira coisa. [Segurança Interna.] O foco exclusivo eram as mulheres e meninas que estão no sistema de Justiça criminal. O comitê quis exibir uma cena da série. Maria, interpretada por Jessica Pimentel, volta à prisão logo depois do parto, um reflexo de algo que testemunhei bem cedo em minha sentença de prisão. A sala ficou em completo silêncio. Todo mundo estava ciente do impacto emocional. Não há substituto para uma boa história como forma de fazer com que esses pontos sejam vistos.

Piper Kerman e Piper Chapman são muito parecidas?

A série não é biográfica, felizmente. Há semelhanças demográficas. Sou basicamente uma mulher de classe média branca e portanto afortunada e favorecida no que tange a navegar o sistema de Justiça criminal. Mas Piper Chapman é fruto da imaginação de Jenji Kohan e de sua equipe de roteiristas, e da interpretação de Taylor. Uma das coisas que amo na série, e isso se aplica a muitos personagens, é que ela recusa a norma de que as personagens femininas precisam ser simpáticas ou afetivas.

Como foi conhecer Taylor?

Na minha primeira visita ao estúdio, eu estava muito, muito nervosa. A cena que estavam filmando foi adaptada do livro sem muita mudança —a cena na qual eu insulto Pop, o personagem no qual Red se baseia. Minha ansiedade começou a diminuir assim que vi a cena rodando. Porque eu achei muito boa. Meu maior medo era que a série não fosse boa. E aí fui apresentada a Taylor, e ela é ótima. Gostei demais dela.

Como seu marido Larry se sente com relação à sua contraparte na ficção, o Larry de Jason Biggs?

Larry tem muito senso de humor e adora Jason. Conhecer Jason foi muito bacana para ele. É difícil manter aquele humor aguçado.

Não é estranho ver seus personagens fazendo cenas de sexo?

Olha, Laura Prepon [a atriz que interpreta a namorada ocasional de Piper, e sua colega de prisão] é muito gostosa. Fica meio estranho. Sim, é estranho. Mas aprecio o lado romântico, o das amantes separadas pelo destino.

Você sabia que Piper seria como que um chamariz para atrair a atenção dos espectadores para personagens que não são brancas e de classe média?

Meu livro costuma ser visto como uma história de peixe fora d'água, porque construímos um sistema carcerário que se concentra desproporcionalmente em pessoas pobres e não brancas. Minha esperança era que o livro atraísse leitores que de outra maneira não leriam um livro sobre prisão e que essas pessoas saíssem pensando e sentindo algo de diferente sobre as figuras centrais da história. O livro na verdade é sobre uma comunidade de mulheres. Minha sensação é que a série é um reflexo absoluto disso. Quase toda pessoa que assista à série vai encontrar alguém que atraia interesse apaixonado.

A temporada acompanha Piper depois da liberdade condicional. Como você se sente sobre a trajetória dela?

A experiência dela foi diferente da minha. Meu retorno à comunidade foi mais fácil. A batalha de Piper Chapman por reingresso, sabendo que ela é uma pessoa muito mais bem posicionada para o sucesso do que a maioria das presidiárias libertadas da prisão, é um lembrete de como a situação é difícil. Há 700 mil pessoas que voltam para casa da penitenciária ou da cadeia a cada ano, neste país. Por isso fiquei feliz por terem incluído uma história de reentrada.

Você tem episódios favoritos?

Sou muito fã daquela história sobre as galinhas. E do trabalho dos roteiristas em histórias sobre maternidade, e o relacionamento entre mães e filhos. São as linhas narrativas mais importantes, por mais que eu ame dramas lésbicos.

Na temporada final, o desfecho de algum personagem a deixou especialmente feliz?

Taystee. O retrato dela por Danielle Brooks é realmente muito forte. É o que mais me comove.

Alguma coisa que a deixou muito triste?

Há muita tristeza na história. Isso é adequado para o material. Nem toda história tem final feliz, e esse é um reflexo realista do mundo. Sempre me perguntam se a série é realista. E eu respondo que sim, muito realista. É isso que é importante que as pessoas entendam. É um relato real do mundo em que vivemos hoje.

Que episódios a fizeram chorar mais?

Quase chorei ontem, naquela sala de audiência da Câmara. Não sou de muito chorar. Sou durona.

A morte de Poussey não a incomodou, portanto?

Não, a morte de Poussey foi devastadora. Para muita gente ela é um marco na maneira pela qual pensamos sobre a série e nos sentimos sobre ela, e, com alguma sorte, sobre o sistema penitenciário. As penitenciárias e prisões dos Estados Unidos são horríveis, duras, incrivelmente punitivas, porque as construímos para serem assim. Uma das coisas mais importantes sobre a série é que mostra belos momentos de humanidade e gentileza. É o motivo pelo qual a série tenha inspirado tamanha devoção.

O que você pode nos dizer sobre o Poussey Washington Fund?

Muitos dos fãs que começaram a assistir à série tinham alguma experiência pessoal com o sistema de Justiça criminal. Muitos deles queriam que o sistema fosse melhor, fosse reformado, fosse transformado. Essa é uma maneira para que os fãs possam contribuir diretamente para organizações que promovem essa transformação de forma concreta. Também espero que os fãs se inspirem, em suas comunidades, quer se oferecendo como voluntários para trabalhar em prisões e penitenciárias, quer se envolvendo em eleições judiciais ou de procuradores. Os fãs da série têm influência direta em como algumas dessas decisões serão tomadas, se estiverem prestando atenção.

Tradução de Paulo Migliacci

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