Prédio ocupado que pegou fogo e desabou no centro de SP é tema de documentário

'Pele de Vidro' traz relato pessoal do edifício Wilton Paes de Almeida, marco arquitetônico projetado pelo pai da diretora

À esq., o térreo do edifício Wilton Paes de Almeida pouco após sua inauguração na década de 1960; ao lado, a mesma vista da construção em 2015, quando já havia sido tomada pelos sem-teto João Xavier/Acervo da Biblioteca da FAU-USP e Plínio Hokama Angeli

Francesca Angiolillo
São Paulo

No incêndio do edifício Wilton Paes de Almeida, em 1º de maio do ano passado, não veio abaixo só o abrigo das quase 300 famílias que haviam feito dele seu lar no centro de São Paulo.

Com o estrondo de seus vidros se partindo, ruiu o projeto original que a documentarista Denise Zmekhol tinha de contar, por meio da história do prédio, a de seu pai, Roger, arquiteto que o desenhou.

Das cinzas daquele que foi, nos anos 1960, o primeiro edifício em altura da América Latina com fachada de vidro independente da estrutura, ela tirou outra narrativa.

Agora, a história dos últimos habitantes do prédio se une à narração do filme “Pele de Vidro”, em forma de carta ao pai que Denise perdeu quando tinha 14 anos, em 1976.

Criado por Zmekhol no auge da arquitetura moderna brasileira para os escritórios de uma companhia de vidros, o prédio foi perdido para o governo por dívidas e feito, ainda na época da ditadura, sede da Polícia Federal.

Abandonado nos anos 2000 pelo INSS, seu último ocupante oficial, foi transformado em moradia de migrantes e imigrantes, como o seu arquiteto. 

Roger Zmekhol nasceu em 1928, filho de uma família síria cristã exilada em Paris após perseguição religiosa no começo do século 20 e dali transferida para São Paulo.

A primeira vez que a diretora viu a obra-prima do pai tornada favela vertical foi pela internet, em imagens que pesquisou quando, em 2015, soube da ocupação do prédio.

Radicada há 21 anos nos Estados Unidos, guardava na lembrança o edifício que vira num tour com um amigo arquiteto. “Fiquei muito chocada, surpresa”, diz. “Era um prédio tombado, importante para a história da cidade, um prédio que meu pai fez.” 

Mas, “mesmo antes do incêndio”, ao entender a realidade daquelas pessoas, resolveu contá-la no documentário.

Ao vir pela primeira vez à cidade para filmar, em outubro de 2017, tentou conhecer os moradores, mas só pôde entrar no lobby. “Se não iam me deixar contar a história de dentro para fora, contaria de fora para dentro.” 

Nasceram daí algumas das últimas imagens da estrutura de pé, captadas a partir de prédios no entorno e de um drone, que teve de esperar as chuvas de verão passarem, em fevereiro, para voar.

Logo depois da tragédia, ficou outro mês, filmando os desabrigados acampados diante dos escombros. 

Agora, busca finalizar “Pele de Vidro”. Tem viajado para apresentar o projeto e levantar recursos. A ideia seria lançar o filme com o livro sobre vida e obra de seu pai, organizado por ela e pelo arquiteto Francesco Perrotta-Bosch, a sair no ano que vem pelas edições Sesc.

Com o filme, a cineasta quer não só mostrar quem foi o pai, mas tocar o coração de um amplo espectro de pessoas para a situação dos sem-teto. 

“Tem um grande desafio de a gente comunicar com essa outra metade da população, no Brasil, nos Estados Unidos, onde a gente está vivendo essa polarização. Espero que essa história pessoal seja vista por outras pessoas, não só as de esquerda.”

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior do texto dizia que a primeira vez etapa de filmagens havia começado em novembro de 2017 e que Denise Zmekhol havia ficado na cidade até fevereiro. Na realidade,  ela começou a filmar em outubro daquele ano e ficou em São Paulo até dezembro. As cenas de drone foram de fato gravadas em fevereiro, após as chuvas cessarem, mas a cineasta já havia retornado aos EUA. O texto foi corrigido.

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