Servidores da Ancine vivem agonia diante de ameaças feitas por Bolsonaro

Um funcionário conta que nunca viu uma obra ser recusada ou autorizada com base na sua temática

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Rio de Janeiro

Uma mosquinha que entrasse hoje por uma das 54 janelas na fachada do prédio da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, no centro do Rio de Janeiro, encontraria um clima de agonia, desesperança e desânimo na repartição pública.

Aqui neste canto, um homem chora, dizendo que uma mudança para Brasília acabaria com seu casamento e ainda o impediria de ver o filho do casamento anterior.

Ali, servidoras, fungando, lembram que prestaram concurso para trabalhar no audiovisual e que seria injusto serem transferidas para outra área se não topassem se mudar, como quer Jair Bolsonaro ao transferir o órgão. Isso sem falar na possibilidade do fim da instituição, outra ameaça do presidente. 

O funcionário que flagrou as cenas e as descreveu assim conta que “todos os dias se encontra gente chorando por causa dessa situação”. “Tem pessoas que não estão dormindo, outras estão passando mal, tomando calmante.”

O presidente Jair Bolsonaro tem criticado a Ancine, mas agora avalia recuar da ideia de extinguir a agência - Pedro Ladeira/Folhapress

Ele, que prefere não se identificar, mostra em seguida a foto de um medicamento para dor e inflamação nos nervos. “Meu colega começou a tomar isso para ficar calmo.”

E até uma piada circula pelo local, na hora do cafezinho. “Se Brasília fosse bom, o Niemeyer, o Lucio Costa, o Burle Marx e o Juscelino não teriam ido morar no Rio depois da inauguração da capital.”

O clima entre os 400 funcionários públicos e 200 terceirizados da Ancine tem estado assim desde que Bolsonaro começou a fazer suas declarações a respeito da agência.

Da ameaça de extinção à criação de filtros para melhor servir à família brasileira, passando pela transferência a Brasília, fim do programa de fomento direto ou até uma suposta privatização, as ideias do presidente põem todo um mercado em risco. Para ilustrar isso, eis dois números para comparação —em 1992, após o desmantelamento da Embrafilme, três longas-metragens brasileiros estrearam. Em 2018, foram 171 títulos.

Nada é oficial. Na sexta (2), o presidente disse que pode até recuar da decisão de extinguir a Ancine.

“Tem a questão do audiovisual que emprega muita gente, tem de ver por esse lado”, falou.

“Mas não foi categórico. Acendeu uma esperança, mas as pessoas estão muito agoniadas”, diz um funcionário, que não quis ser identificado.

O que eles imaginam saber é só o que leem nos jornais. Outro servidor, que também prefere o anonimato, reclama da falta de informações. 

“Entendo que a possibilidade de mudança para Brasília, se acontecer, atinge demais as pessoas. Mas acho que é o menor problema”, diz. “O maior é a nossa desqualificação. A Ancine não é a maior maravilha, mas há 18 anos trabalhamos para ser uma agência que entenda o audiovisual do ponto de vista técnico, com critérios, formatação de projetos e cotas regionais. Aí, um filme fica famoso por ganhar festival. Às vezes, esse filme não é o que o presidente gosta.”

Ele se refere a “Bruna Surfistinha”, de 2011, obra citada por Bolsonaro como contra-exemplo do que o Estado deveria fomentar —nesse caso, financiou R$ 500 mil, cerca de 10% do custo total da produção. Mas se o órgão ajudou a pagar por algo que desagradou a moral de Bolsonaro, também distribuiu dinheiro para filmes católicos, espíritas e mesmo evangélicos.

A Ancine regula, fiscaliza e fomenta o audiovisual brasileiro, o que não se limita à produção de filmes. Passa por áreas como a indústria de games e a modernização do parque exibidor do país, por exemplo. 

Um funcionário que trabalha ali há oito anos conta que nunca viu uma obra ser recusada ou autorizada com base na sua temática.

Um projeto pode pedir dinheiro direto à Ancine, que tem R$ 724 milhões para distribuir neste ano, ou autorização de fomento indireto, ou seja, para captar via Lei do Audiovisual (uma empresa dá dinheiro e depois desconta do imposto de renda).

De qualquer forma, é dinheiro público, mas, no caso do fomento direto, que Bolsonaro ameaçou extinguir, esse dinheiro sai de um imposto pago pelo próprio mercado audiovisual, a Condecine, ou Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional.

Um terceiro servidor ressalta que o atual diretor-presidente da Ancine, Christian de Castro, indicado por Michel Temer, contribuiu para esse clima ao “criar um estado de medo, hostilidade e perseguição dentro do órgão”.

“Fechou departamentos, exonerou funcionários-chave, estabeleceu meios estapafúrdios de distribuição do dinheiro. E nunca vem a público defender a Ancine, quem somos ou o que fazemos”, afirma.

“Se por acaso você quiser fugir do Christian de Castro, esconda-se no gabinete dele.”

De fato, não se ouviu uma palavra de Castro desde que a Ancine passou a frequentar os noticiários. Procurada nesta semana, a assessoria de comunicação da entidade disse que nem ele nem ninguém vai se pronunciar no momento. 

ENTENDA A CRISE

  1. Em 2017, o Tribunal de Contas da União constatou irregularidades na forma como a Ancine aprova as contas de projetos. 
  2. No ano seguinte, o TCU determinou que a agência buscasse nova forma de avaliar a prestação, o que paralisou as atividades do órgão
  3. Em julho deste ano, Bolsonaro criticou o patrocínio a filmes e disse que era inadmissível bancar filmes como ‘Bruna Surfistinha’ 
  4. Ele cogitou transferir a sede da Ancine e falou que a agência podia ser até extinta.
  5. Nesta sexta (2), Bolsonaro disse que pode recuar da ideia de fechar a Ancine

Colaborou Gustavo Uribe, de Brasília

 


 

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