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Cinema

Sexo, drogas e luxo produzem apatia em filme sobre Berlusconi

Com 'Silvio e os Outros', Paolo Sorrentino encontra desafio de se libertar do próprio estilo

Cássio Starling Carlos

Silvio e os Outros

Criar personagens a partir de personalidades é uma ideia que quase sempre fica refém dos fatos, tornando-se mera ilustração. “Silvio e os Outros” tenta se livrar desse limite anunciando, nos créditos, que o filme “é fruto da livre e espontânea criatividade dos autores”.

O Silvio do título é, evidentemente, Berlusconi, o ex-primeiro-ministro italiano, palhaço populista que migrou do poder midiático para a política em meados dos anos 1990.

O filme aborda o personagem a partir da perspectiva de seus excessos, sem precisar frisar seu egocentrismo e suas posições públicas e pessoais como dono do mundo. O excesso, por sua vez, é uma característica fundamental do cinema de Sorrentino.

Como nos longas “A Grande Beleza” e “Juventude” e na série “The Young Pope”, a decoração tem aqui mais importância do que a ficção. Cada plano é construído como um quadro saturado, busca o impacto sensorial, uma espécie de “beleza” ostensiva e imposta.

Neste sentido, a ironia de “A Grande Beleza”, que estava em mostrar o vazio sob o excesso, desaparece em “Silvio e os Outros”, pois aqui não há distância entre o luxo que Sorrentino quer criticar e o luxo de sua estética.

O espelhamento dos dois filmes se confirma no esquema de uma longa abertura composta de quadros meio alegóricos, meio jocosos do hedonismo contemporâneo. Mas desta vez a sucessão de sexo, drogas e música eletrônica como sintomas de devassidão produz apatia em vez de impacto.

O envelhecimento e a decadência, a máscara como o fake que apaga a verdade, a arte museificada e eternizada como símbolo da morte são temas que ainda mantêm Sorrentino relevante. Seu desafio agora é se libertar do próprio estilo.

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