Livro e documentário investigam a filosofia por trás dos safados

'Assholes', pessoas tóxicas e sem escrúpulos, são objeto de teoria de americano

Fernanda Ezabella

[RESUMO] Livro e documentário investigam exemplos de “assholes” —palavrão em inglês para representar, em tradução livre, pessoas safadas e inescrupulosas—, cuja proliferação em diversos grupos acarreta consequências tóxicas para a sociedade.

Foi pegando onda nas praias que Aaron James, professor de filosofia da Universidade da Califórnia, teve a inspiração para escrever o livro “Assholes: A Theory” (ed. Doubleday, 2012), em que trata da moralidade, de causas e efeitos de uma das figuras mais tóxicas da sociedade. Afinal, gente assim não floresce apenas entre surfistas. É uma praga universal que se alastra com mais furor em outras faixas sociais, como a da política.

James define “asshole” como o contrário da pessoa cooperativa. Trata-se daquele sujeito que sempre tira vantagem ao custo dos outros, que possui um profundo sentimento de poder e, por isso, sente-se imune a reclamações. O termo é um palavrão em inglês, e seu significado literal em português é “buraco da bunda”.

Em tradução livre, há mais algumas opções, talvez um sinal de abundância desse tipo de figura entre os brasileiros. Para o poeta e tradutor Glauco Mattoso, autor do “Dicionarinho do Palavrão & Correlatos” (ed. Record), uma boa alternativa seria “safado”, embora também sirvam “inescrupuloso”, “aproveitador”, “folgado”, “abusado”, “cafajeste” e “sacana”.

aaron em frente a estante
Aaron James, autor de "Assholes: A Theory" - Reprodução

O livro de Aaron James fez tanto sucesso que ele escreveu uma nova versão, “Assholes: A Theory of Donald Trump”, lançado em 2016, antes das eleições americanas que deram vitória ao atual presidente. “Quando escrevi, estávamos de frente para o precipício. E o que aconteceu foi que seguimos adiante”, diz hoje o escritor, doutor por Harvard.

“‘Assholes’ são fascinantes mesmo quando nos irritam muito”, afirma James à Folha. “Suas transgressões, seu jeito franco e crasso são coisas chocantes que você acaba por recompensar com sua atenção. É um incentivo para vender coisas, vender programas de TV. E isso tem se traduzido de maneira grandiosa para a política. Quanto mais safado, mais atenção e mais poder.”

As consequências políticas são claras. Uma figura tóxica na liderança de um país vai deixar de lado os assuntos realmente importantes. Afinal, o sacana só quer saber de sua base e vantagens pessoais. E, como acredita estar acima da lei, não escuta ninguém e tenta calar instituições que servem para limitar seus arroubos autoritários, como órgãos do governo ou a imprensa.

O diretor canadense John Walker se inspirou no livro para fazer o documentário “Assholes: A Theory”, em fase de exibição em festivais pelo mundo. Walker aborda diversos tipos de “assholes” e seu habitat: o troll da internet, o dono de startup ganancioso do Vale do Silício, o empresário sem escrúpulos de Wall Street e o bully das corporações policiais.

​E fala também de quem combate a praga, como a multinacional Baird, que adotou tolerância zero contra folgados, sejam funcionários ou clientes. Como resultado, ficou em primeiro lugar entre as melhores empresas financeiras para se trabalhar, segundo a revista Fortune. “É preciso muita disciplina e foco porque, você sabe, é superfácil deslizar e ser sacana uma vez”, explica Paul Purcell, o presidente do conselho da Baird. “Mas não pode. Acaba com a confiança.”

Apesar da profusão de “assholes”, o diretor é cuidadoso para não ser leviano. Não é qualquer um que merece o xingamento. “O livro de Aaron James define bem o ‘asshole’ moralmente. Não é para descrever seu sentimento sobre alguém”, diz Walker à Folha, dando como exemplo a estadista britânica Margaret Thatcher. “Não concordava com ela e suas políticas, mas ela não era uma safada, não operava fora do seu âmbito de poder.”

Segundo o filme, um exemplo do que seria um político safado é o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, magnata da mídia que teve ascensão política na Itália nos anos 1990. Para Walker, o italiano é mais interessante que Trump por ser mais complexo, esperto e bem-sucedido nos negócios.

“É importante para mostrar que esses caras podem, sim, ser bem-sucedidos e sedutores. Talvez Berlusconi tenha influenciado Trump em sua abordagem”, acredita o diretor, que deixou o presidente americano de fora do documentário. “Foi decisão política. A mídia ama um safado e não queria lhe dar mais atenção.”

Para entender o fenômeno italiano, Walker foi ao país ouvir seus cidadãos, como a cineasta e ativista feminista Lorella Zanardo. “Berlusconi fez o sonho de Fellini real”, ela diz, citando a cena de “A Doce Vida” (1960) na qual a personagem de Anita Ekberg seduz o protagonista, Marcello Mastroianni, para entrar na Fontana di Trevi.

Zanardo lembra-se de que os canais de TV de Berlusconi, numa época sem a onipresença da internet, enchiam as telas de mulheres lindas, nuas e de peitos generosos, como Ekberg, numa espécie de hipnose felliniana. “Berlusconi é um safado? Sim. E nós também, somos um país de safados. Por que não o impediram? O que aconteceu com a gente? Bruxaria?”, ela pergunta.

Na visão de Aaron James, o que facilita a ascensão de figuras tóxicas na política é o declínio da confiança nas instituições, causado, talvez, por promessas econômicas não cumpridas. Mesmo o eleitor de bem fica disposto a votar num candidato inescrupuloso na esperança de que ele possa trazer ordem e entregar outros benefícios. “Mas ele esvazia a democracia por dentro e restabelece um tipo de autoritarismo”, afirma James.

O professor de linguística Geoff Nunberg, da Universidade da Califórnia em Berkeley, afirma no livro “Ascent of the A-Word” (ed. PublicAffairs) que o termo “asshole” surgiu entre soldados nas trincheiras da Segunda Guerra Mundial. Já a primeira aparição na literatura e deu no romance de guerra “Os Nus e os Mortos” (1948), de Norman Mailer.

Em uma geração, o termo tomou conta da cultura americana. Nos anos 1970, estava no cinema de Clint Eastwood e nas músicas country. “O ‘asshole’ virou característica da incivilidade moderna”, escreve.

Na filosofia, James encontrou personagens com certa similaridade, desde os diálogos de Platão até trabalhos de Immanuel Kant e Thomas Hobbes. Jean-Jacques Rousseau foi quem mais tentou compreender esse tipo de pessoa, com a ressalva de que ele próprio, segundo a classificação do professor James, deveria ser um exemplo de safado (virou pai de várias crianças e mandou todas para o orfanato).

Segundo o pensador iluminista, no caminho pelo Estado civilizado, a competição por status e poder corrompe a natureza humana e cria vícios. Para combater o declínio, ele pedia educação moral. “Educação humanista tem um profundo impacto no desenvolvimento de nossa moral. É de onde vem a percepção de qual ordem política queremos ou podemos tolerar”, diz James.

Certamente não precisamos de filósofos para nos apontar os folgados do dia a dia. Afinal, foram surfistas que deram a ideia a James. No livro, aliás, ele faz uma menção especial aos surfistas brasileiros que, quando viajam em grupos ao exterior, se comportam como tal, cortando ondas alheias e arranjando brigas.

James começou a surfar aos 13 anos e hoje o faz diariamente. Após lançar os ensaios sobre “assholes”, passou a enfrentar mais essas figuras desagradáveis para tentar entendê-las ou colocá-las em seu lugar. “Virei um policial de safados”, diz, rindo.

Ele avisa que abordá-los em situações rotineiras é sempre frustrante, dadas as artimanhas que demonstram para fugir de responsabilidades. Explosões de raiva são reações comuns, embora improdutivas. Ignorá-los é o melhor, ainda que traga sensação de impotência e ruminações.

“É difícil colocar o dedo na razão pela qual eles nos incomodam tanto. O custo material não precisa ser grande, mas eles são desrespeitosos. São uma afronta ao nosso senso de valor e desafiam o sentimento de que somos iguais.”


Fernanda Ezabella é jornalista e vive em Los Angeles (EUA).

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