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Livros

Milton Hatoum falha ao ser literário demais em novo romance

'Pontos de Fuga' parece entender literatura mais como belas letras do que como investigação e produção de existência real

Pontos de Fuga

  • Preço R$ R$ 49,90 (240 págs.)
  • Autor Milton Hatoum
  • Editora Companhia das Letras

O novo romance de Milton Hatoum, “Pontos de Fuga”, é também o segundo volume de uma série intitulada “O Lugar Mais Sombrio”, cujo primeiro título, “A Noite da Espera”, saiu em 2017. Trata-se, em linhas gerais, de acompanhar uma geração de jovens que viveu e estudou durante o período mais violento da ditadura militar, em Brasília, São Paulo e Paris. 

O protagonista do grupo, ampliado neste segundo volume, é Martim, filho de um engenheiro civil e de uma professora particular de francês. A certa altura, a mãe abandona a casa em que moravam em São Paulo para viver com um pintor, deixando o garoto com o pai, que então se muda para Brasília e enriquece por meio de especulações imobiliárias.

O abandono da mãe e a relação conflituosa com o pai estão no núcleo da vida afetiva de Martim. Mais do que tudo, perturba-o o misterioso desaparecimento da mãe, que falta a um encontro com ele e depois lhe dá notícias cada vez mais esparsas, até sumir de vez. O filho passa então a procurá-la em lugares que pudesse estar, embora, na maioria das vezes, a procura pareça um tanto aleatória, distante de pistas verossímeis. 

Esse é o eixo central da narrativa, que parece relevante do ponto de vista do relato das experiências dos amigos e do acompanhamento do trauma de Martim, que persiste (e se agrava) ao longo dos dez anos passados nos dois primeiros volumes.

Há outro ponto importante na concepção da trama: o fato de não se referir a um narrador único, ou a um gênero único, mas a uma recolha de papéis vários, recebidos dos amigos, da mãe, da avó, ou escritos por ele em diferentes ocasiões da sua vida pregressa.

Está aí a chave da série, uma tentativa de pôr ordem numa experiência, em parte caótica, para tentar encontrar, na reescrita, aquilo que a memória direta, com suas falhas constitutivas, não percebe. Consequentemente, fazendo convergir política e subjetividade, qualifica tanto o sofrimento de um filho abandonado pelos pais, quanto o de uma geração traída por seu país, ao menos enquanto se compreenda a democracia como inerente ao pacto nacional.

A despeito dessas boas premissas, a série (ao menos até agora) não resulta bem. E saber por que isso ocorre, mesmo tocando questões importantes, é o que me intrigou e me levou a formular as três hipóteses seguintes.

Em primeiro lugar, o romance comete o mesmo engano de, por exemplo, “O Irmão Alemão”, de Chico Buarque, que trata os acontecimentos históricos como timeline, ou como diria Barthes, como convencionalismo realista. Aparecem ali “en passant”, sem relevância particular e sem dar azo a qualquer nova interpretação, muitos eventos icônicos do período da ditadura.

Eles servem como moldura superficial, como quadro sinóptico para acompanhamento de um leitor desinformado ou, pior, saudoso dos tempos da juventude. A concepção de história se esfuma aí, nesses marcos que não são objeto de investigação ou de interpretação, mas apenas balizas temporais óbvias, sem aderência à trama. 

Um segundo trunfo desperdiçado diz respeito diretamente ao conflito central, o desaparecimento da mãe, cujas razões ou sem-razões praticamente não avançam. De fato, as hipóteses apenas se tornam mais fantasiosas conforme Martim começa a supor que a mãe possa estar em qualquer lugar do mundo onde estejam os amigos, ou ele mesmo. O que seria interessante, se explorado como um delírio do narrador— procedimento que já rendeu uma obra-prima como “Quatro-Olhos”, de Renato Pompeu.

Não é o que acontece. Martim é sempre o mesmo devaneador distante e quase inabalado pelos fatos: parece que decidiu por conta própria se tornar abandonado, meio doido, meio mimado, o que dilui a ideia de existência do trauma.

Por fim, creio que o romance poderia dispensar-se de dar à escrita da memória uma forma literária demais, como faz Hatoum. A ideia interessante de considerar escritos brutos de época acaba perdendo fôlego. Com isso, a série fica repleta de frases lapidares, solenes, que mais parecem entender literatura como belas letras do que como investigação e produção de existência real.

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