Angela Davis evoca justiça ambiental e anticapitalismo em fala para 15 mil em SP

No Ibirapuera, ativista falou sobre crise ambiental e necessidade de se reconhecer conquistas dos movimentos sociais do país

São Paulo

Ágatha Sales Félix, Marielle Franco, Lélia Gonzalez, Mãe Stella de Oxóssi, Luíza Bairros, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Benedita da Silva, Clara Nunes, Margareth Menezes, Érica Malunguinho, Preta Ferreira, Elza Soares. 

Diante de milhares de pessoas que se reuniram no gramado do parque Ibirapuera para ouvi-la na noite desta segunda (21) em São Paulo, a filósofa e ativista americana Angela Davis, 75, evocou o nome de mulheres brasileiras que são referências do feminismo negro no país e da violência estrutural que ele denuncia.

Para Davis, essas mulheres precisam ser resgatadas e reconhecidas pelos brasileiros, que, segundo ela, parecem saber mais sobre o feminismo negro americano do que de seu próprio.

A filósofa abriu sua apresentação, que durou quase duas horas e meia, falando da crise ambiental pela qual passa o Brasil. Citou as queimadas na Amazônia, o derramamento de um "óleo misterioso" em ampla faixa do litoral do país e os ataques aos povos originários brasileiros. 

"Se não juntarmos forças aos povos indígenas para salvarmos o planeta, todos os demais esforços por justiça serão em vão", disse.

Davis criticou os interesses do agronegócio na região ("que garantem mais lucro para o capital às custas de efeitos devastadores sobre a floresta") e exaltou o líder indígena cacique Raoni Metuktire, atacado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) em seu discurso na ONU em setembro passado. 

A ativista diz não pronunciar o nome do presidente brasileiro nem do presidente americano Donald Trump por uma questão estratégica. "Aprendi isso com as parlamentares americanas Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tiaib, Ayanna Pressley e Ilham Omar, que se referem ao atual presidente americano como o ocupante do escritório da Presidência dos EUA. Na tradição africana, pronunciar o nome é dar poder, e deixar de fazê-lo é deixar de contribuir para eles", disse. 

Davis discursou sobre o viés racial e de classe da guerra às drogas, usando como exemplo a morte da menina Ágatha, atingida por bala supostamente disparada por policiais militares no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro. "Por que uma criança negra deve perder a vida em nome de uma política de segurança de Estado que atira primeiro e pergunta depois?", questionou.

Sempre muito aplaudida, a ativista falou de racismo e letalidade policial, da criminalização de movimentos sociais, de solidariedade global, de boicote internacional, de abolicionismo penal, de militarização do Estado, de capitalismo racial e da importância da ação coletiva e da ascensão social da mulher negra como símbolo de melhora na qualidade de vida de toda a sociedade. "Quando a mulher negra ascende, o mundo ascende com ela", disse. 

"Estou impressionada com a quantidade de pessoas que vieram até aqui nesta noite", disse, agradecendo a "acolhida entusiasmada". A organização estimou o público em 15 mil pessoas. No último sábado (19), Davis havia participado de conferência no Sesc em que os ingressos se esgotaram em pouco minutos.
No Ibirapuera, alguns diziam que o gramado estava tomado por uma maioria negra. Outros, enxergavam uma plateia majoritariamente branca. Na falta de estatísticas oficiais, as impressões sugeriam um raro equilíbrio racial.

"O fato de ser uma segunda-feira atrapalhou muita gente que queria vir. Mesmo assim, eu consegui", comemorava o professor de sociologia Nilo Vimi, 34, que viajou desde São Carlos, no interior paulista, para ver e ouvir a ex-Pantera Negra. "Ela é referência internacional da luta contra o racismo e inspira todos os negros a se mobilizarem", avalia. "Falta unidade aos vários movimentos sociais brasileiros que tratam de classe, de raça e de gênero. É essa relação que Davis prega", diz. 

A engenheira de produção Rebeca Isfer, 20, veio de Curitiba (PR) ver a ativista de perto, e a pesquisadora Thayná Faria, 32, veio de São João del-Rei (MG) num ônibus com outros 20 amigos. O artista catarinense Sérgio Adriano H, 44, viajou 8h30 de Joinville (SC) para ouvi-la porque "ela nos ensina a lutar com inteligência num lugar em que falta luta porque falta conhecimento". 

"É muita emoção", resumia a estudante carioca de psicologia Dandara Silva, 22, que desceu na rodoviária da capital paulista, vinda do Rio, com a sensação de que "viria alguém que parece ter saído de um livro de história".

Presa em 1970, acusada de sequestro, assassinato e conspiração, Angela Davis chegou a figurar na lista do FBI dos dez mais procurados do país. A campanha por sua libertação a transformou em ícone da contracultura e da resistência do movimento negro americano.

Ela veio ao país pela oitava vez para o lançamento de sua autobiografia, pela editora Boitempo. 

Em meio a várias declarações de amor pelo Brasil, a ativista disse que país tem a tradição musical mais vibrante do mundo e que pode ensinar a experiência coletiva da alegria para o mundo. Entoou palavras de ordem como "Marielle Presente" e "Lula Livre", e disse que o Brasil tem muito a aprender com a militância americana, mas que a também tem muito o que ensinar ao mundo. 

"Precisamos ser mais radicais e mais livres naquilo que desejamos para o nosso presente e para o nosso futuro."

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