Novo museu quer acabar com a domesticação da arte feminina

Instituição em Lisboa será dedicada a artistas lusófonas e deve abrir as portas em 25 de novembro

Mario Cesar Carvalho
São Paulo

Quando pesquisava para a sua tese de doutorado na Universidade de Nova York, há 30 anos, a professora de estética, curadora e escritora Katia Canton descobriu que a história de Chapeuzinho Vermelho havia passado por um processo brutal de assepsia: nas versões mais antigas, o Lobo devorava vovó e Chapeuzinho, sem qualquer possibilidade de salvação, já que o caçador não existia no enredo.

Canton acha que um processo similar de domesticação ocorre com as exposições de arte sobre mulheres. Quase todas, segundo ela, privilegiam a questão de gênero, o velho Fla-Flu de homens x mulheres.

Escolhida para dirigir o Mima (Museu Internacional da Mulher - Associação), que será aberto em Lisboa, ela quer imprimir um tom mais político às mostras a partir de um tripé: sustentabilidade, violência e indústria da moda.

“Tem museu que fala de feminismo como estratégia de marketing. Isso não me interessa. Quero ver como o feminismo está redesenhando o mundo. Não é só uma questão de gênero. Queremos entender a questão da mulher com a história e com a terra”, afirma.

Professora de estética na pós-graduação da USP e ex-vice-diretora do MAC (Museu de Arte Contemporânea), Canton diz que a questão política não ficará restrita a artistas conhecidos.

Em tempos convulsivos, segundo ela, é preciso ir além. Ela incluiu nas futuras mostras trabalhos de índias munduruku, que lutam contra hidrelétricas no rio Tapajós, e de bordadeiras de Mariana (MG), que transformaram a tragédia da Vale em peça política.

Para a pesquisadora, o objetivo do museu não é apenas mostrar obras de mulheres, mas ser um “espaço de debate para temas da vida que colocavam a mulher em determinados lugares de fala e de atuação”.

A criadora do museu, a jornalista e atriz portuguesa Paula Castelar, diz que a intenção do projeto é criar uma outra narrativa sobre mulheres. “Nos museus, há uma grande desigualdade em relação às mulheres, muito retratadas, mas com poucas obras assinadas no feminino. Esta instituição tenta ser uma contra-corrente”, diz.

O museu português faz parte de uma rede, a International Association of Women’s Museums, fundada em 2012 e que tem 74 instituições em lugares tão díspares quanto Burkina Fasso, China, Alemanha e Estados Unidos.

A abertura do museu será em 25 de novembro, data criada pela ONU como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.

A primeira exposição, “Meu Corpo, Minha Língua”, será sobre violência e acontecerá no Fórum Grandela, um palacete do início do século 20 cedido pela Câmara Municipal de Lisboa.

Outras três exposições já estão com temas definidos. Serão sobre clima e ambiente, moda e a teia de gêneros que existe atualmente no mundo —Nova York, por exemplo, reconhece 29 gêneros além dos tradicionais homem e mulher.

A abertura será um resumo da ópera das artistas feministas que falam português —o museu é voltado aos países lusófonos. Tem brasileiras (Rosana Paulino, Beth Moysés), portuguesas (Teresa Milheiro), angolanas (Mónica de Miranda) e até de Macau, na China (Yuen Yi Lo).

Beth Moysés, cujos trabalhos misturam o mito do amor romântico e a violência, conta que é impressionante a guinada que houve na recepção dessas obras em 20 anos.

Em 2000, ela fez uma performance com 150 mulheres vestidas de noiva andando pela avenida Paulista arrancando pétalas de rosa e, ao final, enterravam os espinhos.

“As pessoas me aconselhavam a não fazer esse trabalho porque iriam pensar que eu era louca. Nesses vinte anos muita coisa mudou. Eu fui uma das primeiras artistas militantes que falavam sobre essa violência velada, que acontecia no ambiente privado”, diz Beth.

Canton diz que não é preciso ser mulher para produzir arte que trate de questões femininas e incluiu um homem na primeira exposição do novo museu: Domingos Mazzilli Junior, definido pela curadora como “um gay que tem várias personas femininas”.

Mazzilli foi psiquiatra em Minas até 2007, quando passou a se dedicar só à arte. Ele faz performances que são fotografadas, para as quais criou 33 mulheres fictícias, e borda lingeries dos anos 1950 e 1960, como anáguas, sutiãs de bojo e corpetes, com frases para lá de conhecidas, como “Decifra-me ou te devoro”. A frase-provocação, no caso, foi bordada na parte do corpete que fica sobre a vagina.

 

“Tenho uma alma feminina. Fui criado por uma mãe e cinco irmãs. Depois ouvi as demandas das mulheres segregadas nos consultórios médicos”, diz o artista, que acredita ter um olhar sobre as questões femininas diferente do das mulheres.

“Antigamente, uma mulher incomodada era a que estava no período menstrual, das ‘regras’. Vejo nas minhas lingeries bordadas um certo desregramento, um despudor, na medida em que dou visibilidade ao recato, ao íntimo, ao doméstico. Eu não adoço para as mulheres.”

Doze anos antes de a ministra Damares Alves defender que menina usa rosa e menino, azul, Mazzilli fez a sua série rosa com roupas íntimas. A ideia é a de que o bordado era uma espécie de prisão domiciliar da mulher, já que a obrigava a ficar em casa.

Seu discurso está a anos-luz do da ministra do presidente Jair Bolsonaro (PSL): “Faço do triângulo pudendo de uma calçola a minha tribuna”.

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