Masp exibe obras de pintoras que foram ignoradas na história da arte

Mostras jogam luz sobre o trabalho de artistas mulheres dos séculos 16 a 19, que não encontram espaço nos museus

Clara Balbi
São Paulo

Lavinia Fontana teve tanto sucesso na pintura que seu marido largou o trabalho para assumir a criação dos 11 filhos do casal. Elisabeth Louise Vigée Le Brun foi a retratista oficial da corte de Luís 16, além da artista favorita de Maria Antonieta. Sofonisba Anguissola ganhou elogios de Michelangelo em pessoa.

Elas são apenas algumas das pintoras atuantes entre os séculos 16 e 19 que o Masp apresenta em “Histórias das Mulheres, Histórias Feministas”. 

Dividida em duas mostras, a primeira com trabalhos até 1900 e a segunda com obras a partir dos anos 2000, a iniciativa é mais um capítulo na tentativa do museu de ampliar as vozes que escreveram a história da arte —esforço que começou há três anos, com “Histórias da Infância”.

Vale observar que as artistas do século 20, aqui excluídas, guiam as exposições monográficas montadas no resto do ano, como as de Tarsila do Amaral ou Lina Bo Bardi.

À frente de “Histórias das Mulheres: Artistas até 1900” junto a Julia Bryan-Wilson e Lilia Schwarcz, Mariana Leme diz que os casos de Fontana ou Anguissola são mais comuns do que se imagina. Afinal, explica, a noção de que as mulheres não podiam ser artistas profissionais, apenas amadoras, só foi cristalizada no século 20.

Mas foi ela que ficou para nós. Os museus de belas artes raras vezes exibem obras de mulheres nas paredes. Os principais manuais de história da arte não citam seus nomes.

“Parece um círculo vicioso. Se você só vê isso”, diz Leme, apontando para duas pequeninas telas que pertencem à coleção do Masp, “você tem a impressão de que as mulheres não fizeram aquilo”, afirma, direcionando o olhar para uma pintura de dois metros de altura da italiana Artemisia Gentileschi. “Isso é mentira, e as obras estão aqui para provar.”

 

Os trabalhos permitem descobrir artistas pouco conhecidas, além de testemunhar as dificuldades que elas enfrentaram ao longo dos séculos.

Dois quadros da francesa Adrienne Grandpierre-Deverzy são simbólicos nesse sentido. No primeiro, ela retrata uma aula de arte para mulheres. Doze jovens se apinham no ateliê de pintura. No segundo, um artista pinta uma mulher nua num estúdio vazio.

O desafio também atravessou a organização da mostra, que garimpou os trabalhos em galerias e coleções particulares —pouco mais da metade das pinturas expostas vêm de museus, aos quais o público tem acesso. Leme acrescenta que mesmo as instituições brasileiras não têm muito conhecimento das artistas mulheres que possuem nos acervos.

Além das pinturas, “Histórias das Mulheres” exibe também têxteis de autoria feminina manufaturados na Inglaterra, na Índia, nos Andes, no antigo Império Otomano e em outros lugares. Um deles mostra as colchas costuradas por associações de mulheres americanas no final do século 19 —as peças eram vendidas para financiar desde a Guerra de Secessão a campanhas pelo sufrágio feminino.

Os “quilts” servem como uma espécie de transição para “Histórias Feministas: Artistas depois de 2000”, que ocupa os andares subterrâneos do Masp. Outras obras feitas com tecido, de bandanas a enormes painéis bordados, costumam ser mostradas ali.

A curadora Isabella Rjeille diz que não quis mapear uma produção feminina contemporânea na mostra.

Em vez disso, explica, os artistas —a maioria, jovens latino-americanas, mas há um homem na seleção— mostram como a vivência feminina pode ser associada a outras esferas de ativismo.

Dessa forma, o coletivo Daspu, formado por prostitutas, costura um vestido de noiva a partir de lençóis usados em bordéis. Virginia de Medeiros retrata as antigas vizinhas na ocupação do velho edifício do INSS, no centro de São Paulo.

Outros trabalhos se debruçam sobre as artistas mulheres que vieram antes delas. “As Páginas Brancas”, da dupla sueca Eva Marie Lindahl e Ditte Ejlerskov Viken, por exemplo, cria volumes para diversas artistas ignoradas pela coleção de livros da editora Taschen. Seus miolos permanecem em branco.

Nenhuma das curadoras gosta da ideia de uma história da arte feminina, no entanto. “Essa ideia de feminino pressupõe que formamos blocos homogêneos”, afirma Leme.

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