Sem ineditismo, feira de arte se apega ao legado arquitetônico de Chicago

Trabalhos de Lygia Clark, Angelo Bucci, Lina Bo Bardi e Hélio Oiticica fizeram parte da exposição

Chicago

É atípico que cidades tenham tours arquitetônicos a bordo de barcos como um de seus principais passeios turísticos, como é o caso de Chicago. Sob as vozes em alto som de guias explicando autoria, história e estilo de cada torre avistada, visitantes navegam pelo rio que leva o nome do município americano.

De fato, nenhum dos prédios é banal. Há os ecléticos do início do século com fachadas rendilhadas, as peles de vidro modernas, as reedições de elementos clássicos dos pós-modernos, ou mesmo o mastodôntico Trump Tower local.

Não por acaso, a feira de arte Expo Chicago, ocorrida entre os dias 19 e 22 de setembro, pega carona no legado arquitetônico da cidade.

Uma das instalações feitas para o evento é a imensa imagem de uma cadeia de montanhas colada na fachada do Lake Shore Drive, conjunto residencial projetado por Mies van der Rohe. A joia modernista de vidro e metal com proporções visualmente perfeitas foi tatuada com a textura rochosa da foto do artista israelense Assaf Evron.

Os quatro dias da Expo também coincidem com a abertura da Bienal de Arquitetura de Chicago, que enfrentou temas difíceis e emergentes. Já numa entrada do Centro Cultural da Bienal, o Mass Design Group fez um memorial aos mortos por armas de fogo, e no outro acesso há um manifesto reconhecendo a cidade como originalmente território indígena.

Por sua vez, a Expo se amparou no elogio às formas modernistas, o que é, afinal, mais palatável para as vendas em uma feira de arte. Esta ocupou o Pavilhão Naval, um espaço de mais de 15 mil metros quadrados na ponta de um píer no lago Michigan, onde se instalaram 135 galerias provenientes de 24 países.

Entre elas estava a paulistana Bergamin & Gomide. Na sua primeira participação na Expo Chicago, a galeria levou a mostra “Exhibit A.A.A.” —as letras correspondem a “Atlas da Arte e Arquitetura do Brasil”.

A curadoria da arquiteta mexicana Sol Camacho aproximou as “Estruturas de Caixas de Fósforos” de Lygia Clark a maquetes-objeto de Angelo Bucci. A curvatura do “Relevo” de Sergio Camargo reverberava com uma chaise longue desenhada por Paulo Mendes da Rocha na década de 1980.

Consagrados como Lina Bo Bardi e Hélio Oiticica ficaram ao lado de jovens, como o fotógrafo Pedro Victor Brandão e os arquitetos do escritório Vão. Declara-se no texto curatorial que tais associações ocorrem por “relações formais, semelhanças e conotações”.

A galeria Nara Roesler dedicou seu estande à exposição solo de Artur Lescher. Foram exibidas esculturas metálicas em delicado equilíbrio, como as apresentadas na recém-encerrada mostra individual do artista na Estação Pinacoteca.

A participação brasileira ficou completa com a galeria carioca Mercado Moderno, com mobiliário do Mameluca Studio, e a Mendes Wood, com peças de diferentes artistas.

Grandes galerias internacionais, como a suíça Hauser & Wirth e a nova-iorquina David Zwirner, também bateram ponto em Chicago. Parte considerável dos trabalhos à venda são os mesmos encontrados em outras feiras pelo mundo.

Raros foram os expositores com mostras feitas para a ocasião e o caráter genérico da Expo acaba não conseguindo corresponder às singularidades arquitetônicas de Chicago.

O jornalista viajou a convite da Expo Chicago.

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